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faz igual, mas não copia - 12/02/2026, 09:00 - Lais Machado

'Samba nunca cai': mestres do ritmo questionam espaço do pagodão

De Seu Zé Arerê ao estreante Zau O Pássaro, artistas mostram como samba, pagodão e axé se cruzam na folia baiana

Nomes do ritmo destacam diferenças
Nomes do ritmo destacam diferenças |  Foto: Alfredo Filho| SECOM PMS

"Tudo é Carnaval pra quem vive bem", assim cantou Oscar da Penha, mais conhecido como Batatinha, renomado sambista baiano. Da capital para o país inteiro, o artista é um dos responsáveis por consolidar o ritmo do samba pelo que ele é: Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco.

Escolhido como tema do Carnaval de Salvador de 2026, "O Samba Nasceu Aqui", o gênero que embala histórias de amor, de folia e de cultura é também berço de várias vertentes — samba-enredo, pagode, partido-alto… e aí começa a eterna discussão, e até a ‘rixa’:

Qual a diferença entre samba e pagode? e além, qual a diferença dos dois para o 'pagodão baiano?'.

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Para tentar esclarecer, o MASSA! foi ouvir quem entende do assunto. José Luís Lopes, o Zé Arerê, presidente do bloco Alerta Geral — que completa 55 anos este ano —, explicou com a propriedade de quem vive o ritmo:

“O samba nasceu na Bahia, chegou no Rio de Janeiro, e lá os cariocas tomaram conta. Mas lá não tem muito samba de roda, isso é aqui na Bahia”, afirma Seu Zé Arerê. Ele completa:

Aspas

Lá tem samba-enredo, samba de raiz… mas o pagode surgiu depois. O pagode foi uma invenção do samba que deu certo

Presidente do Bloco Alerta Geral Zé Arerê
José Luís Lopes, 'Zé Arerê'
José Luís Lopes, 'Zé Arerê' | Foto: Shirley Stolze| Ag. A Tarde

O samba nasceu na Bahia

O samba, que nasceu no Recôncavo baiano e se fortaleceu no Rio de Janeiro, foi criando suas próprias características ao longo do tempo. Na Bahia, a forte influência da percussão evidencia o samba de base africana e de terreiro. Já no Rio, os instrumentos de corda, como o cavaquinho, ganham mais destaque, segundo estudos do radiojornalista Perfilino Neto.

Seu Zé reforça que o bloco valoriza essas raízes:

“Eu não parto muito para o pagode para não mudar a origem do bloco. Saem muitas pessoas idosas que gostam mesmo de um samba de raiz. É um samba mais cadenciado, mais pé no chão. E samba é isso. É diferente do samba duro, que já é um samba mais de terreiro, um estilo que eu também gosto muito e que é muito forte aqui.”

Questionado sobre a força do pagodão no Carnaval de Salvador, e se o samba teria perdido espaço, ele responde sem hesitar:

Aspas

O samba nunca cai. Samba é samba. É algo que nasce no coração do sambista. O pagode é praticamente um filho do samba

Presidente do Bloco Alerta Geral Zé Arerê

Ele também explica como identificar cada batida dentro do universo do ritmo:

“Você ouvindo samba, você sabe o que é pagode, sabe o que é samba duro, sabe o que é samba de roda, sabe o que é samba de raiz. Todo mundo sabe no popular. A pancada é totalmente diferente.”

Homenagem a Arlindo Cruz

O bloco Alerta Geral estará presente na abertura oficial da festa nesta quinta (12). Segundo Arerê, o grupo abriu caminhos para outros blocos de samba que hoje fazem parte da programação oficial, totalizando 58.

Este ano, o homenageado será Arlindo Cruz, sambista com mais de 780 músicas gravadas e um dos maiores nomes do gênero.

Arlindinho Cruz estará presente para homenagear o pai na abertura do Caranaval de Salvador
Arlindinho Cruz estará presente para homenagear o pai na abertura do Caranaval de Salvador | Foto: Divulgação| Fitamarela

Onde fica o pagode?

Para o cantor baiano Izac Bruno, o Zau O Pássaro, uma das novas vozes do pagodão, os ritmos caminham juntos. “Musicalmente, a célula é muito parecida. O pagode é um derivado do samba, e o que muda mesmo é só as letras e a forma de dançar.”

Zau até brinca que "o pagode é um samba com energético.

Zau O Passáro
Zau O Passáro | Foto: Raphael Muller| Ag A Tarde

Estreante no Carnaval de Salvador, Zau defende que os dois ritmos se respeitam:

Aspas

O pagode deve muito ao samba, assim como o samba também deve respeito ao pagode. É como um filho — você tem que tratar bem.

Cantor Zau O Passáro

Axé e pagodão: os dois lados da folia

Na contagem regressiva para a festa, Zau aponta que o pagodão baiano tem dominado a avenida:

O pagodão é o cartão-postal da Bahia. Com todo respeito ao axé music, mas acho que o ritmo pecou um pouco em continuidade. Você não vê surgirem novos nomes no axé.

Ele destaca artistas que lideram a cena, como Léo Santana, Xanddy e Tony Salles, e explica por que o pagodão se mantém tão forte:

O pagode se reinventa, por mais que tenha aquele probleminha com a letra. Mas é algo que lidera Spotify, lidera YouTube. Isso não pode ser ignorado. Salvador respira pagode, a Bahia respira pagode, e o pagodão também.”

Pagodão e a Lei Antibaixaria

A polêmica Lei Antibaixaria, que impede o uso de verbas públicas para artistas com músicas de teor sexual explícito ou apologia ao crime, mexe com a rotina dos cantores do pagodão. Zau acredita que parte do preconceito vem de uma cultura de censura.

Aspas

A gente tem que entender que a galera que escreve isso escreve para um público. Existe um grupo que consome. O grande problema é onde tocar isso

Cantor Zau O Passáro

Para ele, a discussão é mais profunda:

“Vai tocar para crianças? O problema vai muito além da letra. A partir do momento que não tiver cultura disponível, educação disponível, as pessoas vão consumir aquilo que elas acham normal. O problema está muito além da música", concluiu.

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