
"Tudo é Carnaval pra quem vive bem", assim cantou Oscar da Penha, mais conhecido como Batatinha, renomado sambista baiano. Da capital para o país inteiro, o artista é um dos responsáveis por consolidar o ritmo do samba pelo que ele é: Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco.
Escolhido como tema do Carnaval de Salvador de 2026, "O Samba Nasceu Aqui", o gênero que embala histórias de amor, de folia e de cultura é também berço de várias vertentes — samba-enredo, pagode, partido-alto… e aí começa a eterna discussão, e até a ‘rixa’:
Qual a diferença entre samba e pagode? e além, qual a diferença dos dois para o 'pagodão baiano?'.
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Para tentar esclarecer, o MASSA! foi ouvir quem entende do assunto. José Luís Lopes, o Zé Arerê, presidente do bloco Alerta Geral — que completa 55 anos este ano —, explicou com a propriedade de quem vive o ritmo:
“O samba nasceu na Bahia, chegou no Rio de Janeiro, e lá os cariocas tomaram conta. Mas lá não tem muito samba de roda, isso é aqui na Bahia”, afirma Seu Zé Arerê. Ele completa:
Lá tem samba-enredo, samba de raiz… mas o pagode surgiu depois. O pagode foi uma invenção do samba que deu certo
Presidente do Bloco Alerta Geral Zé Arerê

O samba nasceu na Bahia
O samba, que nasceu no Recôncavo baiano e se fortaleceu no Rio de Janeiro, foi criando suas próprias características ao longo do tempo. Na Bahia, a forte influência da percussão evidencia o samba de base africana e de terreiro. Já no Rio, os instrumentos de corda, como o cavaquinho, ganham mais destaque, segundo estudos do radiojornalista Perfilino Neto.
Seu Zé reforça que o bloco valoriza essas raízes:
“Eu não parto muito para o pagode para não mudar a origem do bloco. Saem muitas pessoas idosas que gostam mesmo de um samba de raiz. É um samba mais cadenciado, mais pé no chão. E samba é isso. É diferente do samba duro, que já é um samba mais de terreiro, um estilo que eu também gosto muito e que é muito forte aqui.”
Questionado sobre a força do pagodão no Carnaval de Salvador, e se o samba teria perdido espaço, ele responde sem hesitar:
O samba nunca cai. Samba é samba. É algo que nasce no coração do sambista. O pagode é praticamente um filho do samba
Presidente do Bloco Alerta Geral Zé Arerê
Ele também explica como identificar cada batida dentro do universo do ritmo:
“Você ouvindo samba, você sabe o que é pagode, sabe o que é samba duro, sabe o que é samba de roda, sabe o que é samba de raiz. Todo mundo sabe no popular. A pancada é totalmente diferente.”
Homenagem a Arlindo Cruz
O bloco Alerta Geral estará presente na abertura oficial da festa nesta quinta (12). Segundo Arerê, o grupo abriu caminhos para outros blocos de samba que hoje fazem parte da programação oficial, totalizando 58.
Este ano, o homenageado será Arlindo Cruz, sambista com mais de 780 músicas gravadas e um dos maiores nomes do gênero.

Onde fica o pagode?
Para o cantor baiano Izac Bruno, o Zau O Pássaro, uma das novas vozes do pagodão, os ritmos caminham juntos. “Musicalmente, a célula é muito parecida. O pagode é um derivado do samba, e o que muda mesmo é só as letras e a forma de dançar.”
Zau até brinca que "o pagode é um samba com energético.”

Estreante no Carnaval de Salvador, Zau defende que os dois ritmos se respeitam:
O pagode deve muito ao samba, assim como o samba também deve respeito ao pagode. É como um filho — você tem que tratar bem.
Cantor Zau O Passáro
Axé e pagodão: os dois lados da folia
Na contagem regressiva para a festa, Zau aponta que o pagodão baiano tem dominado a avenida:
“O pagodão é o cartão-postal da Bahia. Com todo respeito ao axé music, mas acho que o ritmo pecou um pouco em continuidade. Você não vê surgirem novos nomes no axé.”
Ele destaca artistas que lideram a cena, como Léo Santana, Xanddy e Tony Salles, e explica por que o pagodão se mantém tão forte:
“O pagode se reinventa, por mais que tenha aquele probleminha com a letra. Mas é algo que lidera Spotify, lidera YouTube. Isso não pode ser ignorado. Salvador respira pagode, a Bahia respira pagode, e o pagodão também.”
Pagodão e a Lei Antibaixaria
A polêmica Lei Antibaixaria, que impede o uso de verbas públicas para artistas com músicas de teor sexual explícito ou apologia ao crime, mexe com a rotina dos cantores do pagodão. Zau acredita que parte do preconceito vem de uma cultura de censura.
A gente tem que entender que a galera que escreve isso escreve para um público. Existe um grupo que consome. O grande problema é onde tocar isso
Cantor Zau O Passáro
Para ele, a discussão é mais profunda:
“Vai tocar para crianças? O problema vai muito além da letra. A partir do momento que não tiver cultura disponível, educação disponível, as pessoas vão consumir aquilo que elas acham normal. O problema está muito além da música", concluiu.
