27º Salvador, Bahia
previsao diaria
Facebook Instagram
WHATSAPP
Receba notícias no WhatsApp Entre no grupo do MASSA!
Home / Cidades

Berço de artistas - 17/04/2026, 09:35 - Artur Soares

3º Round resgata protagonismo preto nas batalhas de rima em Salvador

Escola de Baco Exu do Blues, projeto se consagrou como um dos principais da capital baiana

Lucca, Azêh, Perzzeus e Monarka, participantes do 3⁰ Round
Lucca, Azêh, Perzzeus e Monarka, participantes do 3⁰ Round |  Foto: Shirley Stolze/ Ag A Tarde

A cena hip-hop é efervescente em Salvador e isso já não é mistério. Dentre as diversas batalhas de rima da capital baiana, a 3º Round desponta como possivelmente a maior de seu segmento. Berço de artistas como Larício Gonzaga, Japa e Baco Exu do Blues, a batalha se tornou uma “escola” para quem quer viver de rap. Neste sábado (18), às 16h, o projeto chega em mais uma edição que promete sacudir a Praça da Cruz Caída, no Centro Histórico.

O evento é aberto ao público e promete um duelo intenso entre 16 MCs de alto nível. Do número total de vagas, oito estarão disponíveis para qualquer um presente que deseje rimar. As inscrições acontecem 30 minutos antes do início da edição e é preciso pagar uma taxa de R$ 5. Além disso, quatro dessas vagas são destinadas à mulheres e ao público LGBTQIAPN+, o que reforça o compromisso da 3º Round com a igualdade de gênero.

Criada em 2013 na Praça da Cruz Caida, a batalha surgiu como uma forma de resgatar o protagonismo negro para a arte do freestyle. “Com essa ascensão da internet, a gente entendeu que as batalhas e o mundo do hip-hop começou a perder suas características. A gente percebeu que poderia correr o risco, como muitos movimentos que surgiram com pessoas pretas, do movimento ser embranquecido”, explicou Cosca, criador da batalha 3º Round, em entrevista ao MASSA!.

Cosca  criador do 3º Round
Cosca criador do 3º Round | Foto: Shirley Stolze/ Ag A Tarde

Todos os públicos são bem-vindos para aproveitar o espetáculo lírico. Pensando em uma maior abrangência e representatividade, Cosca implantou uma cartilha de boas maneiras para quem sobe no palco. “O público LGBTQIAPN+ era muito ausente no mundo das batalhas e isso tomou um caminho diferente por conta de nosso manual de convivência, que é uma certa cartilha do que os MCs podem ou não podem falar. Não pode rima homofóbica, machista, transfóbica e por aí vai”, relembrou.

Mais do que um teste para quem é mais criativo, as batalhas de rima são um laboratório para quem sonha com música. Em cima do palco, de frente com seu aniversário, cada MC começa a entender o que é necessário para se tornar um grande músico. “As batalhas de MCs costumam ser a base, é onde esses artistas treinam performance de palco, como pegar num microfone, como interagir com a plateia, dicção,é onde eles iniciam todo o processo artístico de se tornar um artista consagrado”, pontuou.

Leia Também:

É desse “ringue” a céu aberto que nascem os cantores que conquistam os fones de uma multidão de brasileiros. O maior exemplo disso é Baco Exu do Blues, um prodígio nascido na 3º Round. “O Baco é esse grande expoente vindo do 3º round e que hoje se tornou essa grande referência não somente no rap, mas na nova música popular brasileira. O Baco rompe todas essas fronteiras, dialoga com o público geral”, analisou.

Por mais que sejam “duelos até a morte”, as batalhas de rimas são, acima de tudo, um ambiente de harmonia e paz. É por meio de iniciativas como essa que jovens periféricos acabam tendo sua vida transformada por meio da arte. “É um movimento de fundamental importância porque existem vidas que dependem disso. Eu acho que não estaria aqui se não fosse o rap em minha vida. E não é só eu, acho que muita gente tem isso consigo mesmo individualmente. Eu me sinto honrada de participar desse movimento”, destaca Nane Bisppo, responsável pela produção do evento.

Mulheres na cena

Atualmente com uma equipe formada em sua maior parte por mulheres, a 3º Round também se estabelece como um local de potência feminina. A batalha segue na luta de tornar o movimento hip-hop em um local ainda mais diverso.

“Eu estou aqui por causa de uma mulher, eu quis estudar produção por causa de uma outra mulher. Eu sei que outras mulheres me admiram e me veem dessa maneira. Eu fico muito feliz de estar incentivando essas mulheres a fazerem parte e também estar trazendo outras mulheres, amigas e outras pessoas, para conhecerem o movimento”, relatou Nane.

Nane, produtora do 3⁰ Round
Nane, produtora do 3⁰ Round | Foto: Shirley Stolze/ Ag A Tarde

Acompanhando a cena do rap desde a infância, Nane entende melhor do que ninguém o poder de algo como a 3º Round. A gratidão é estampada no rosto de quem foi acolhida desde sempre pela cultura da rima. “O que o 3º Round construiu e vem construindo ao longo desses anos é algo que eu admiro muito, principalmente na vida dos jovens negros e periferencos e na minha vida também, enquanto uma mulher negra periferica. Antes de entrar no 3º round eu era uma pessoa e depois minha construção de pensamento e intelecto se tornou outra”.

Campeões dão a letra para juventude

Para qualquer um que participa da 3º Round, ganhar um colar — prêmio concedido ao campeão da batalha — é um objetivo a ser alcançado. Dentre os MCs, existem aqueles que esbanjam uma vasta quantidade de jóias no pescoço por conta de seu talento nas rimas. Esse é o caso de Azeh e Monarka, multicampeões que servem de inspiração para quem está dando os primeiros passos no universo das rimas.

Apesar da vitória se tornar uma constante na vida desses artistas, conquistar o troféu da 3º Round é uma experiência que nunca perde a emoção. “Por mais que algumas pessoas pensem que a gente que já ganhou mais de três, quatro vezes, não sente a mesma energia que a primeira vez, isso é completamente contraditório. Hoje eu sou decacampeão da 3º Round e falo que estou na busca de ganhar meu 11º colar da mesma forma que estava no primeiro”, contou Monarka.

Com grandes vitórias vem grandes responsabilidades. O histórico de triunfos traz consigo o fardo de ser um exemplo. A tarefa não é simples, mas os MCs acabam tirando de letra. “Por onde a gente vai, as rimas que a gente já falou seguem falando por nós. Temos toda uma responsabilidade ali não só com o público, mas também com o futuro do freestyle, do hip-hop baiano, da cultura baiana. A gente assina esse pacto de responsabilidade imaterial quando a gente é campeão da 3º Round”, pontuou Azeh.

Imagem ilustrativa da imagem 3º Round resgata protagonismo preto nas batalhas de rima em Salvador
Foto: Shirley Stolze/ Ag A Tarde

O caminho para ser um campeão é cheio de percalços, mas quem já trilhou deixou algumas dicas para os novatos. O segredo principal está na observação da batalha. “A conquista de um colar no 3º Round é muito individual. Acho que o primeiro passo é você se enxergar naquele movimento, o que você é naqueles 16 MCs. Depois disso, você precisa pensar o que aquela edição é. Cada edição tem um significado, um momento, uma história”, explicou Monarka.

Para quem já se consolidou no cenário do hip-hop, é impossível não sentir esperança vendo a nova geração. A certeza que fica é de que a cena está em constante desenvolvimento. “Nós temos prodígios, nomes que eu tenho orgulho de citar, como o próprio Lucca. É um movimento natural da Bahia ser uma fábrica de monstros. Temos meninas que rimam muito também, como Duda Santhana, Adri. Essa nova geração traz muito um quê de esperança, pé no chão, uma rapaziada que rima bem”, garantiu Azeh.

Promessas de uma nova geração

A 3º Round também é o local onde novos MCs acham um espaço para mostrar ao mundo do que são capazes. Promessas da nova geração, Lucca e Perzzeuz são a prova viva de que a evolução é uma consequência da perseverança. Apesar de serem relativamente novos na batalha da Praça da Cruz Caída, eles já demonstram um nível de habilidade e comprometimento dignos de artistas profissionais.

Apesar de estarem ganhando os holofotes recentemente, a humildade nunca deixa de habitar o discurso dos dois jovens baianos. Lucca ressalta que sua trajetória foi sempre rodeada de amigos que o inspiraram. “Eu vi que era possível e várias pessoas que eu me inspirava na época, que eram consequentemente meus amigos, puderam me mostrar o caminho, me auxiliaram até chegar nos grandes palcos”, acrescentou.

Jovens querem realizar sonhos por meio da música
Jovens querem realizar sonhos por meio da música | Foto: Shirley Stolze/ Ag A Tarde

Além de uma grande oportunidade, participar da 3º Round é uma experiência que extrai o máximo desses novos talentos. Para quem não leva as coisas a sério, ser superado se torna apenas uma questão de tempo. “O 3º Round não é qualquer batalha, é uma batalha de circuito muito profissional, você é tratado exatamente como o profissional que você é, então a régua sobe muito e caso você não entenda o circuito, não seja realmente profissional, você será passado para trás”, enfatizou Perzzeuz.

Para quem está chegando, é normal sentir medo diante outros artistas que possuem mais tempo de bagagem. Com o tempo, o temor de enfrentar os veteranos cara a cara vai desaparecendo, dando lugar a uma frieza que apenas a maturidade é capaz de proporcionar. “Eu tenho essa motivação de rimar com pessoas que são mais antigas por questão de experiência. A transição veio com o tempo, a frieza e a experiência que você acaba adquirindo nas batalhas”, declarou Perzzeuz.

Começar a carreira como um MC de batalha é uma decisão capaz de mudar vidas. O encontro com novas pessoas, realidades e eventos pode vislumbrar no início, mas não podem fazer com que o artista esqueça de suas próprias origens. “Tenha certeza que você vai passar por muita coisa. Entenda que você vai estar lidando com o público, pessoas nos bastidores, com eventos grandes, muita gente, mas não deixe de ser você, não perca sua essência, não pense que se você fizer tal coisa vai ser bem visto ou mal visto”, aconselhou Lucca.

exclamção leia também