
Falar de Salvador sem lembrar do tradicional, famoso e ancestral acarajé é impossível. A iguaria culinária, que foi consagrada como Patrimônio Cultural da cidade, há mais de 20 anos, pela Lei Nº 6138/2002, se mantém viva ao longo dos séculos, graças às mãos e ao trabalho árduo dos baianos e baianas de acarajé. Por trás das bancas, eles carregam sonhos, sustentam famílias, geram empregos e perpetuam o legado que vem da fé e da resistência dos povos negros escravizados.
Leia Também:
Uma das principais comidas de rua da capital, o acarajé não perdeu seu significado ao longo dos anos e nunca foi visto apenas como um alimento comum pelas novas gerações. O próprio ato de vendê-lo, as características do tabuleiro e outras comidas comercializadas junto a ele tornaram-se um símbolo marcante da Bahia, conforme pontuou a socióloga, ativista cultural e influenciadora digital Thaísa Barros.
“Por representarem uma profunda conexão com a herança africana, o sincretismo religioso e a resistência social, o acarajé, o abará, bem como o ofício da baiana e sua culinária, se tornaram pilares da cultura local. Ao longo do tempo, os alimentos sagrados dos terreiros foram adaptados para o consumo popular, incorporando ingredientes como o azeite de dendê, o camarão seco e a pimenta”, explicou ela em entrevista ao Jornal MASSA!.

Além disso, o acarajé virou um elemento de liberdade financeira para muitas pessoas e continua sendo assim até os dias atuais. “A venda dos quitutes na rua foi um meio de sustento e autonomia para muitas mulheres negras, sobretudo no século XIX. O ofício se tornou uma forma de trabalho, que muitas vezes financiou a compra de alforrias e a manutenção dos terreiros de candomblé”, completou.
As dores e as delícias de ser Patrimônio Cultural Imaterial

Quem vive na pele o que a socióloga contextualizou é a baiana Dulce Mary, de 54 anos. Figura muito conhecida no Centro Histórico de Salvador, ela é a quarta geração de baianas de acarajé da família e começou a colocar a mão na massa aos 7 anos de idade para ajudar no sustento de casa. A mãe dela teve 11 filhos e os criou com o que ganhava honestamente no tabuleiro.
“Eu fiquei aqui com minha mãe para criar meus irmãos. Assim, hoje eu vejo meu tabuleiro como um empreendimento, mas a gente, mulher negra, porque nós somos as primeiras empreendedoras desse Brasil, a gente sempre viu isso aqui como renda familiar sem que tivesse educação, instrução. Porque hoje eu tomo curso, me atualizo, eu já vejo diferente”, contou.
Se minha mãe visse isso aqui como uma empresa, estávamos tendo uma vida melhor, mas eu não reclamo não

A banca do Acarajé da Mary fica na Praça da Sé e faz muito sucesso. Ela adora se vestir com as ornamentações de baiana, não dispensa uma boa maquiagem e tem um sorriso acolhedor. Mas nem tudo são flores.
Mary, como é mais conhecida na localidade, vive também o peso de ser um patrimônio histórico vivo. Na prática, muitas pessoas enxergam nela a obrigação de servir, posar para fotos sem nem ser cumprimentada ou questionada se gostaria de aparecer e ficar submissa mesmo diante do desrespeito — achismos herdados do período escravocrata e que escancaram o racismo estrutural.
Antes mesmo de ser baiana, ela é um ser humano com vontades, pensamentos e tem os seus limites pessoais. “O acarajé é minha vida, mas até hoje eu sinto tristeza, sinto do fundo do meu coração, que as pessoas ainda tratam nosso trabalho, o nosso ofício, com discriminação, com falta de respeito”, desabafou.
Da mesma forma que eles têm a forma deles negativa de detonar o nosso estado, a nossa terra, a nossa comida, a gente também tem que rever o conceito deles, porque a baiana de Acarajé, ela é representatividade, mas ela também merece respeito
Para a empreendedora, o caminho para a mudança vem da educação: “Eu acredito que o povo brasileiro tem que estudar mais a história, porque talvez se ele estudasse mais a sua própria história, talvez ele desse valor à história do Brasil. Porque nós fazemos parte da construção desse país e trazemos um Estado nas costas com a nossa figura cultural e com o nosso patrimônio”.
O primeiro baiano de acarajé

O baiano Nailton Santana, mais conhecido como Cuca, é o primeiro homem a atuar profissionalmente na venda de acarajés em Salvador. Aos 65 anos, ele revelou que o encontro com a função aconteceu de forma natural, quando era bem novo e ajudava a mãe a levar os materiais pesados para o tabuleiro.
“Quando ela chegava, ela já queria o tabuleiro arrumado, a massa batida. E aí a gente ia aprendendo a fazer. Daí, ela demorava de chegar e eu já começava a abrir o ponto. Fui pegando isso e fui trabalhando. Hoje eu já estou com 44 anos de acarajé”, relembrou.
Quem passa pelas barracas do baiano Cuca e se depara com ele na função, nem imagina os sufocos e preconceitos que ele enfrentou para dar início ao próprio negócio. Sua presença em um trabalho relacionado às mulheres foi difícil de ser aceita pela população.
Entre as décadas de 80 e 90, o mundo era outro e a sociedade não enxergava com bons olhos um baiano de acarajé. O caso de Cuca repercutiu bastante em uma época em que nem existiam redes sociais, e seu tabuleiro precisou ser desmontado às pressas inúmeras vezes.

“Eu sentava com o tabuleiro, chegavam, mandavam me levantar. Aí no outro dia deixavam. Ficou aquela polêmica, depois chegou ao ponto de me deixarem direto, mas até hoje ainda tem um pouquinho de polêmica, porque dizem que eu chamo muito a atenção do povo”, falou ele ao MASSA!.
A situação só melhorou quando autoridades resolveram reconhecê-lo oficialmente: “A prefeitura não liberava, a minha associação não liberava. Entrou outra associação para poder liberar, porque disse que o mesmo trabalho que o homem podia fazer, as mulheres já faziam, que não tinha problema”.
Se existia mulher policial, existia prefeita, porque foi no tempo de Lídice da Mata, então não tinha nada a ver o homem vender acarajé com o gênero. E aí eu fui seguindo em frente
Depois de muita luta, o baiano Cuca conseguiu trabalhar em paz e foi crescendo como referência. Novos baianos surgiram após ele abrir caminho. “Como eu sou o primeiro homem do acarajé, então simplesmente foi uma coisa que foi registrada e ficou. Até hoje eu sou o primeiro homem. Chegaram vários outros aí, mas igual a mim não tem”, disparou.
Caracterização de baiano

Sempre na correria para cuidar das barracas, que ficam localizadas no Rio Vermelho, no Porto da Barra e em Ondina, além de organizar os serviços em eventos privados, Nailton Santana até esqueceu de usar as roupas tradicionais de baiano durante a entrevista, mas ele garantiu que não abre mão das vestimentas quando está no ofício e revelou que foi pioneiro na escolha das cores para reverenciar os Orixás.
“Tem muitos homens me imitando, porque nenhum se vestia. A mesma coisa foi o lançamento da roupa do dia. Foi eu que lancei isso de segunda uma cor, terça outra, quarta outra, quinta outra, sexta outra, sábado outra e domingo outra. Cada um tem a cor de cada orixá do dia”, alfinetou.
🎨 Cores do dia do baiano Cuca:
➡️Segunda: preto e branco ou vermelho, preto e branco
➡️Terça: azul
➡️Quarta: vermelho e branco
➡️Quinta: verde ou azul claro
➡️Sexta: todo de branco
➡️Sábado: amarelo
➡️Domingo: colorido
O legado do acarajé
Cuca contou que suas maiores referências na profissão vieram das mulheres da família: a avó dele, a tia e a mãe. O talento para preparar o quitute parece ser hereditário e continua presente nas novas ramificações da família. O trabalhador tem 8 filhos, sendo quatro mulheres e quatro homens. Todos eles trabalham com acarajé.

Ele já é avô de 18 netos e nem pensa em se aposentar. “Esse legado, para eu deixar, vai demorar um pouquinho, né? Mesmo com eles adultos, porque é muito bom trabalhar, é muito gostoso a gente ficar com esse legado na mão. Não quero soltar nunca”, declarou ele.
Mais do que um empreendedor, Cuca se tornou um agente social. Ele ajudou a tirar jovens das ruas e ensinou o ofício a muitos deles. “Criei meus filhos todos, tirei muitos meninos de rua que usavam droga. Hoje tem uns 15 homens que trabalham com acarajé, fritando e preparando. Ensinei várias meninas também, que hoje têm seus próprios pontos”, afirmou.
Uma baiana moderna e inovadora

Adriana Ferreira dos Santos, ou melhor, Drica, é daquelas mulheres que carregam a bandeira do empreendedorismo com orgulho. Com 19 anos no ramo do acarajé, ela começou seguindo os passos da mãe, dona Zete, que também é baiana.
Esse ramo nós começamos e conquistamos em nossa vida: nossos sonhos, nosso futuro, o futuro de nossos filhos
Mãe de três, Drica transformou o ofício em sustento e legado. As duas filhas mais velhas já trabalham com ela, e o menorzinho, de sete anos, apenas observa de perto o negócio da família. Ela possui uma barraca na Praça João Martins, em Paripe, tem uma unidade no bairro de Itapuã e faz entregas para várias áreas de Salvador, por aplicativo.
Diferente das baianas tradicionais, Drica não usa vestidos, turbantes, colares e pulseiras. Ela é muito ligada aos pilares de negócios e investe em modernidade e marketing para se destacar.

Para mim, todo mundo que trabalha com acarajé é baiana de acarajé. Não sou baiana de acarajé tradicional, de ponto turístico, mas eu sou baiana de acarajé e ganho minha vida, meu dinheiro, vendendo acarajé
Outros diferenciais dela são os deliciosos recheios com camarão fresco e siri catado, além da criação da barca de acarajé e do fato de ter sido a primeira baiana a fazer delivery.

A polêmica do acarajé rosa
Em 2023, por exemplo, quando o filme ‘Barbie’ foi lançado e muitas marcas aproveitaram a febre da cor rosa, Drica Ferreira coloriu o acarajé para fazer uma brincadeira com os seguidores e entrar na tendência da internet. Porém, o que era para ser algo leve virou uma confusão.
“Foi bem difícil, bem complicado, porque não foi a intenção de forma nenhuma de descaracterizar o patrimônio histórico, a cultura baiana, jamais. Isso aí foi um jogo de marketing através da movimentação que teve do filme da Barbie. Então, como eu sou uma empreendedora, eu viso tudo muito no empreendimento, como todos entraram nessa área de marketing para poder aumentar mais e fomentar as vendas, eu também tive essa ideia”, explicou.
Apesar da repercussão intensa e de ter recebido vários ataques, a moradora do Subúrbio de Salvador superou o momento ruim e fez do limão uma limonada: “Deus é tão maravilhoso, o que me deu foi mais força, porque ia ser só uma foto e hoje eu estou aí marcada com o acarajé rosa. Tanto é que trocamos até nosso fardamento, era amarelo e vermelho, agora deixei todo mundo rosa”.

A maior felicidade da baiana é poder levar o sustento da família, realizar sonhos e ainda gerar empregos a partir do quitute. “Levando muito trabalho para muitas pessoas, ajudando muitas famílias, ajudando a nossa família também”, comemorou.
