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Local de destaque - 25/07/2026, 07:00

Além do racismo: mulheres negras ocupam lugar de liderança na Bahia

Neste sábado (25), é celebrado o dia da mulher negra latino-americana e caribenha

Lu Amâncio lidera uma empresa feminina e negra
Lu Amâncio lidera uma empresa feminina e negra |  Foto: Uendel Galter/Ag. A TARDE

Desde 1992, a mulher negra latino-americana e caribenha celebra a sua história de vida no dia 25 de julho. Mais do que uma comemoração, a data instituída durante o 1º encontro de Mulheres Afro-latino-americanas e Afro-caribenhas, em Santo Domingo, na República Dominicana, denuncia a opressão, o racismo e o sexismo vividos por elas.

Dados do Instituto de Pesquisa DataSenado em parceria com o Observatório da Mulher contra a Violência e Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, divulgados entre 2023 e 2024, apontam que no Brasil há mais de 45 milhões de mulheres negras e, deste número, 2,8 milhões são analfabetas.

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Ainda segundo o levantamento, das mulheres pretas e pardas que conseguem terminar o ensino médio, apenas 14% concluem o ensino superior. A falta de formação muitas vezes acaba influenciado no emprego e renda deste público. Cerca de 66% das negras vivem com até dois salários míninos.

Essa desigualdade é causada pela falta de oportunidades, poucas políticas públicas e um saldo extremamente negativo causado por 350 anos de escravidão, que foi abolida sem nenhum tipo de reparo histórico.

Porém, nem só de sofrimento vive a mulher negra. Se por um lado, a afro-brasileira tem uma trajetória cheia de desafios, por outro, a sua força e resiliência a fazem conquistar lugares de destaque, como aponta o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), que afirma que das 700 mil empreendedoras baianas, 70% são negras. Esse é justamente o caso da assessora de imprensa Luciana Amâncio, de 37 anos.

Jornalista faz parte dos 70% das mulheres negras que empreendem na Bahia
Jornalista faz parte dos 70% das mulheres negras que empreendem na Bahia | Foto: Uendel Galter/Ag. A TARDE

Com uma veia empreendedora desde a adolescência, a jornalista fez a sua habilidade virar oficalmente um negócio em 2016. Desde então, Lu, como é carinhosamente conhecida dentro e fora do seu ambiente de trabalho, atua no ramo da comunicação, assessorando diversos tipos de empresas.

Aspas

Liderar uma empresa sendo negra e tendo um time de mulheres negras, para mim, é a maior realização até aqui.

Lu Amâncio, assessora de imprensa

Apesar de ocupar um lugar de destaque, Lu ressalta que até hoje o caminho não é fácil e sente que precisar caminhar um trajeto mais longo do que as pessoas não negras.

"Essa questão de fazer mais reflete até hoje e isso é formado por diversos atravessamentos. Tem o gênero, tem a raça. Por ter a pele clara eu demorei para entender o que era me compreender enquanto corpo negro no mundo. Além disso, também tem o recorte racial, eu venho do bairro de Cajazeiras, um local periférico, dessa forma eu sempre entendi que só fazer não era o suficiente, eu teria que fazer muito bem. Dez anos empreendendo e eu ainda noto isso, eu sei que entrego mais, mas não sou remunerada como muitas pessoas que não entregam a mesmo qualidade que eu", destacou em entrevista ao MASSA!

Cria da periferia, Lu, que é mãe de um menino negro, de sete meses, acredita que ser mãe foi a maior conquista da sua vida e destaca que através da sua trajetória na educação, sempre incetivada pelos pais, e seu esforço diário em seu empreendimento, permitem que seu filho tenha uma vida diferente em comparação a ela. "Eu vejo que ele, tão pequeno, já tem acesso a muitas coisas e tem uma vida bem melhor do que eu já tive".

Uma sobe e puxa a outra

Talvez você já tenha escutado ou lido a frase "uma sobe e puxa a outra", que significa sororidade e apoio entre as mulheres. Isso se aplica perfeitamente as mulheres negras, que sabem o quanto é dificil estudar, ter um bom emprego e alcançar os lugares que almejam. Seguindo essa citação, a empreendora Lu, que está à frente uma empresa formada somente pelo público feminino negro, ressalta a importância desse passo.

Ser inspiração para outras mulheres tem fortalecido a autoestima da assessora de imprensa
Ser inspiração para outras mulheres tem fortalecido a autoestima da assessora de imprensa | Foto: Uendel Galter/Ag. A TARDE

"Liderar uma empresa sendo negra e tendo um time mulheres negras, pra mim, é a maior realização até aqui, enquanto empreendedora. A frase que me atravessa é 'a porta que é aberta para mim, eu preciso abrir outras para que outras pessoas venham também'. Meu objetivo é que meu time cresça com outros grupos minorizados também. Por exemplo, eu quero contratar uma pessoa negra LGBT, pois eu entendo que não é só sobre mim, nunca é só sobre nós, é sobre nossas famílias, sobre as pessoas com quem trabalhamos. O maior ganho que tenho com o meu negócio, até agora, são as pessoas que trabalham comigo", afirmou.

Aspas

É muito mais que uma conquista profissional, é um espaço que, por muito tempo, foi negado às mulheres negras.

Rute Macedo, psicóloga

Além de muito trabalho, ocupar um lugar de destaque, também permite que a assessora de imprensa tenha momentos significativos em sua carreira. "Eu fico muito feliz em ter colegas de profissão e pessoas mais jovens que me têm como inspiração. Às vezes sou convidada para palestrar, para participar de debates e o que eu ouço é sempre positivo, como uma aluna que encontrei e disse 'Lu eu estou começando a estudar relações públicas porque te sigo, passei a gostar da profissão e quero isso pra mim", disse.

"Tudo isso reflete na minha autoestima, ter consciência desse lugar de sucesso, que eu sei que foi conquistado, pois são 10 anos de empresa e 18 de profissão, de muita dedicação e respeito ao meu trabalho. Me alimenta inspirar outras pessoas, que podem ocupar essa posição que estou hoje, porque sou igual a elas", crava a jornalista, ressaltando a importância de ser referência para outras mulheres negras.

Esse aumento na autoestima vivenciado pela profissional da comunicação, por ocupar um lugar de liderança e ser inspiração para outras pessoas, é explicado pela psicóloga Rute Macedo.

"É muito mais que uma conquista profissional, é um espaço que, por muito tempo, foi negado às mulheres negras. Psicologicamente falando, isso fortalece a autoestima, o senso de pertencimento e mostra que elas têm sim, competência para ocupar o lugar que quiserem", explicou em entrevista ao MASSA!

Rute Macedo destaca a importância das conquistas às mulheres negras
Rute Macedo destaca a importância das conquistas às mulheres negras | Foto: Arquivo Pessoal

A psicóloga também destaca que ver outras mulheres afrodescendentes em posições de lideranças impacta positivamente na saúde das jovens.

"A representatividade faz diferença porque amplia o que essas meninas acreditam ser possivel para elas. Quando elas se enxergam neste lugar, a autoestima é fortalecida, a confiança aumenta e os sonhos que, antes pareciam distantes, agora são incentivados", acrescentou Rute.

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