
Além de um ambiente de aprendizagem, a escola também pode se tornar um berço para novos talentos artísticos. É com essa perspectiva que o professor Jocevaldo Santiago desenvolveu o livro Ao Som do Sinal — Novos Contos Negros. A obra reúne contos escritos por dez alunos de três colégios dos bairros de Paripe, Pirajá e Valéria. Com entrada gratuita, o lançamento oficial acontece neste sábado (25), às 9h, na Biblioteca Central do Estado da Bahia, nos Barris.
O baiano enxerga o livro como a possibilidade de que uma juventude negra e periférica possa contar as suas próprias histórias. Mais do que um mero relato da realidade, a obra é uma oportunidade desses jovens se aventurarem pelas águas da escrita criativa.
“Quando é um autor de classe média alta que escreve sobre nós, isso é uma coisa, isso de cara já tem a chancela da arte. Quando somos nós que escrevemos sobre nós mesmos, isso passa a ter um olhar de apenas um relato de vida. Ao Som do Sinal é preponderantemente um texto criativo e literário”, contou em entrevista ao MASSA!.

A criação da coletânea de contos é uma ação do projeto Cri’Ativa - Talentos Literários. A iniciativa surgiu em 2024, quando Jocevaldo percebeu a necessidade de criar um programa de formação de autores destinado aos alunos. “À medida que eu comecei a fazer oficina de escrita criativa, percebi diversos talentos. Ao mesmo tempo, nós também fazíamos rodas de leitura para acompanhar o desenvolvimento e a percepção textual desses estudantes”, acrescentou.
Formado em Letras e atualmente ensinando língua portuguesa, o baiano destaca a importância de trazer um maior protagonismo negro para a literatura. A capacidade de se identificar com os livros é essencial principalmente para o público mais jovem. “Na maioria das vezes, nós não conseguimos ter acesso a um escritror que seja negro ou que seja proximo da gente. A literatura é uma área muito elitizada, os livros que chegam na escola não tem a nossa cara”, pontuou.
A potência dos jovens na literatura
Além de construir narrativas autorais, Ao Som do Sinal — Novos Contos Negros é o primeiro passo de uma nova geração de escritores. Os dez autores da obra servem como uma grande inspiração para seus colegas de turma. “Eles têm a oportunidade de escreverem de modo que falem de sua realidade, criando e sendo inventivos a partir de sua criatividade. A partir disso, outros estudantes vão se espelhar neles, como já está acontecendo”, afirmou.
Dos dez jovens selecionados, oito são garotas negras. O recorte demonstra a força da presença feminina preta dentro do universo da literatura. Alguns desses talentos estão na Escola Teodoro Sampaio, no bairro de Pirajá. Mesmo sendo jovens, as escritoras demonstram saber exatamente o que desejam para seus futuros.
“Eu espero e acredito que um dia eu também possa ser inspiração para outras meninas e garotos negros que também querem falar e merecem ocupar espaços importantes, tanto na literatura, quanto fora dela”, contou Lorrana Brito, de apenas 15 anos, que participou da escrita de Ao Som do Sinal — Novos Contos Negro.
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Moradora de Pirajá, Lorrana enfatiza a importância da escrita para sua vida. Inspirada por outras autoras negras, ela destaca a literatura como uma oportunidade de tocar o coração das pessoas. “No começo, a escrita para mim era mais como uma válvula de escape, para eu escrever tudo o que eu não conseguia dizer. Hoje eu vejo como uma oportunidade de inspirar, tocar alguém, de fazer com que aquele leitor se sinta entendido”, disse.

Participar do livro é uma grande realização para quem deseja trilhar um caminho na escrita. A coletânea de contos é apenas o início dessa longa história. “A partir do momento que vi que meu conto havia sido selecionado e estava nesse livro, eu falei ‘se eu consigo isso, eu consigo algo a mais’. Uma coisa que eu sempre recebi foi o apoio de professores que acreditavam em mim e, se eu consegui isso, foi por causa deles”, afirmou Maria Clara Rodrigues, 15, que também escreveu Ao Som do Sinal.
O trabalho desses jovens é a prova concreta do papel transformador da escrita. É por meio da arte que elas encontram uma nova forma de existir em sociedade. “A escrita, para mim, é minha liberdade. Tudo o que eu não consigo falar ou demonstrar, eu escrevo. Não à toa, uma das minhas formas de demonstrar amor é por meio da escrita. A escrita é minha liberdade, é onde eu consigo expressar o que eu sinto, desejo, quero e vejo”, contou Maria Clara.

