
Nossa Senhora Conceição da Praia, Nossa Senhora da Conceição, Imaculada Conceição. Nomes similares e que se referem à mesma Santa. Hoje, em mais um 8 de Dezembro, Salvador e outras cidades do Brasil comemoram o dia de Nossa Senhora Conceição da Praia, padroeira da Bahia.
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Nesta segunda-feira (8), além de Salvador, as cidades de Belo Horizonte (MG), Belém (PA), Rio de Janeiro (RJ), Teresina (PI), João Pessoa (PB), Maceió (AL), Aracaju (SE), Manaus (AM), Recife (PE), São Luís (MA), Boa Vista (RR) e Cuiabá (MT) - onde a data é decretada como feriado municipal - fiéis e devotos direcionam a atenção às missas, procissões, pagamentos de promessas e outras celebrações destinadas à Nossa Senhora Conceição da Praia.
A Basílica da Conceição da Praia, no Comércio, em Salvador, é a igreja mais procurada no dia 8 de dezembro. É lá que fiéis realizam as mais diversas manifestações de fé à Santa definida como dogma (verdade revelada por Deus e proclamada oficialmente pela Igreja) pelo Papa Pio IX, em 8 de Dezembro de 1854.
O historiador Rafael Dantas explica o porquê desse dia ser tão significativo à cidade de São Salvador. "Nossa Senhora da Conceição tem ligação forte com Salvador desde a criação da cidade, na época da chegada de São Leite Souza, como primeiro governador-geral, ele já tinha uma imagem de Nossa Senhora da Conceição. Entender a relevância do 8 de dezembro, nesse processo aqui em Salvador, na Bahia, é, antes de qualquer outra coisa, destacar a influência das culturas ibéricas no contexto da América Portuguesa. Sabemos que a cidade de Salvador nasce sob a égide das influências culturais de diversas culturas. E aí, a gente tem a influência portuguesa, africana e indígena. Mas durante muitos anos, o predomínio, a imposição das matrizes católicas foi o que fizeram esse contexto da formação da nossa cidade, a começar pelo próprio nome, Cidade do Salvador, Cidade do Cristo", disse.
Católico desde 2007, Davi Lemos discorreu sobre a devoção pela Santa. "A fé na Mãe de Jesus, na Imaculada Mãe de Deus, é uma marca dos católicos. A fé na Imaculada Conceição, ou seja, que ela foi concebida no ventre de Sant´Ana sem carregar sobre si a culpa original por graça de Deus pelos méritos da Paixão de Cristo, é também uma forma de recordarmos que fomos criados para a santidade. Maria é santa porque foi preservada do pecado, mas, nós, filhos dela, podemos ser resgatados se vivermos em comunhão com o Filho Dela, salvador dela e nosso. Maria é a obra prima da criação a quem o Criador chamou de Mãe. A Imaculada Conceição recorda-nos que fomos criados para uma inocência original", disse.
Por ser padroeira do estado baiano, a data dedicada a ela torna-se ainda mais relevante. E, embora 8 de dezembro não seja considerado feriado nacional, a mobilização realizada em Salvador e em outros 12 municípios do Brasil demonstram a crença pela Imaculada. Em Salvador, entretanto, essa crença é considerada ainda mais potente, como destaca o historiador.

"A comemoração dedicada à Nossa Senhora da Conceição geralmente é importante e tem muita relevância em algumas cidades costeiras. Oito de dezembro, dia de Nossa Senhora da Conceição, é sempre lembrada por esse preciso, até por conta de sua ligação também com os mares. No caso da Bahia, é porque é a padroeira. Então, essa é a grande diferença. O padroeiro de Salvador é São Francisco Xavier, não é o Senhor do Bonfim, como muitas pessoas confundem. E a padroeira é Nossa Senhora da Conceição. Inclusive, acontece algo muito bonito, que é o encontro do filho com a mãe. Isso acontece em 1º de janeiro, na festa de Bom Jesus dos Navegantes, onde a galeota, a gratidão do povo, levando a imagem do filho, do Cristo, e encontra o Nossa Senhora da Conceição lá na região pontual de Salvador. Então, a grande razão dos feriados é porque é a nossa grande padroeira", completou Rafael.
Para Davi, 8 de dezembro vai muito além de uma data no calendário. "Viver esta solenidade é mergulhar e contemplar os mistérios da fé, os mistérios de nossa redenção. Salvador, ou melhor, a Bahia é consagrada desde a sua fundação à Imaculada Conceição. Sob o título de Nossa Senhora da Conceição da Praia, vivemos esta fé mariana como marca de nosso povo. Ir à Basílica da Conceição da Praia ou ir à missa em qualquer outro templo católico é rememorar e trazer para o nosso cotidiano esta realidade. Eu viverei esta solenidade, neste ano, na Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem, onde crianças também farão a primeira comunhão. Será um dia especial".
"Para os católicos é um dia de preceito, ou seja, dia de ir à celebração da missa realizada neste dia solene. Como católico, apoiaria um dia de feriado nacional como ocorre na Bahia. Mas causaria maior alegria se o feriado fosse vivido realmente com espírito devocional e não como um dia de folga. No Brasil, a vivência dos feriados, civis ou religiosos, está afastada da essência, do sentido primordial que faz de tantas datas feriados nacionais ou locais. O importante é viver essa data, esta celebração deste título mariano, mergulhado neste mistério", declarou Davi.
O profano
Enquanto devotos e fiéis vão às celebrações para renovar a fé, agradecer e desfrutar das graças e do momento religioso, tem quem vá para curtir lado profano (batuques, músicas, bebidas).
Segundo o historiador, essa parte profana existe há muitos anos. "Sempre quando a gente pensa em festa, a gente lembra de duas faces. A face tradicional, ortodoxa, da razão da festa e os partidores que estão ao redor da festa. Então, sempre teve o lado profano e religioso, isso está desde os primórdios. Tanto que a igreja católica, em diversos momentos, tentava pontuar, tentava dar o limite para o dia que se pode e que não pode. Com o passar do tempo, o lado profano ficou mais acentuado porque começou a ser sentido como um atrativo para a festa, que não era antes. Ou seja, você tinha uma festa com uma razão religiosa, com um motivo de romaria, festivo, mas religioso. E já que tinha muitas pessoas, comida e bebida, tinha festa, tinha o profano, acabava-se criando também essa festa mais exacerbada", explicou o historiador.

"Hoje, no decorrer do século XX, meados do século XX e antes, cada vez mais se vendeu, se propagou, se divulgou, não só o que é esse religioso, mas o que é esse, tipo festivo, atrelado também ao profano. É como se virasse tudo um carnaval. E isso se acentua a partir da segunda metade do século XX. O senhor do Bonfim, por exemplo, lá na Vale do Bonfim, já temos notícias, registros e outras atividades paralelas aconteciam em volta da festa", pontuou Rafael.
