
Em um lugar tão movimentado como a Avenida Sete, Salvador esconde um refúgio de paz e silêncio: o Mosteiro de São Bento. Com uma biblioteca que dá inveja a muitas universidades, arquitetura impressionante e monges vivendo no local, o espaço ainda é um mistério para muitos soteropolitanos, mesmo estando diretamente ligado à história da capital baiana.
Logo na chegada, a sensação de tranquilidade toma conta do ambiente. A recepção também ajuda: fomos recebidos pelo simpático Dom Anselmo, responsável por guiar a visita e contar a história do mosteiro, que acaba se misturando com a própria linha do tempo de Salvador.
Início de tudo
Tudo começou em 1575, quando o frei beneditino Pedro de São Bento Ferraz chegou à capital baiana, que na época tinha apenas 26 anos de fundação. A missão dele era justamente criar o mosteiro. A ideia começou a ganhar forma quando o cacique Ipirú, convertido ao cristianismo após uma missão jesuíta, doou terras para a construção do espaço.
A primeira construção do mosteiro começou em 1582, e os primeiros monges passaram a viver no local dois anos depois, em 1584. Com o passar do tempo, o complexo foi sendo ampliado, passou por reformas e também se adaptou ao crescimento da cidade de Salvador.
Interligado à história
Com tantos anos de existência, é natural que o mosteiro se entrelace com a história da Bahia. Um exemplo ocorreu no século XIX, quando monges beneditinos acolheram vítimas da Guerra de Canudos.
Já em um período mais recente, o Mosteiro de São Bento também teve papel importante durante a ditadura militar no Brasil. Na época, o local chegou a abrigar estudantes e intelectuais perseguidos pelo regime, muito por causa da atuação de Dom Timóteo Amoroso Anastácio, que era abade do mosteiro.
A atuação foi tão marcante que, em 1968, policiais militares chegaram a invadir o mosteiro e encontraram estudantes escondidos nas celas — como são chamados os quartos onde vivem os monges.
Leia Também:
“Falando da época da ditadura militar, a gente lembra da figura de Dom Timóteo Amoroso Anastácio, que era o então abade do mosteiro. Dom Timóteo teve uma ação muito forte nesse período, porque defendeu, sobretudo, a vida das pessoas. Ele defendeu vários intelectuais na época, que eram estudantes que lutavam contra as medidas que aconteciam naquele período. E soube acolhê-los, até escondê-los, para que não fossem mortos nem sofressem qualquer represália”, explicou Dom Anselmo, em entrevista ao MASSA!, em uma das salas do monastério.
Segue agindo na vida dos mais necessitados
Atualmente, o mosteiro continua exercendo uma função social importante. Dom Anselmo destaca que as portas seguem abertas para todos, especialmente para pessoas em situação de vulnerabilidade.
“O mosteiro hoje age na vida das pessoas tanto na parte espiritual, acolhendo todos aqueles que acorrem a esta casa para partilhar da vida e também da espiritualidade de São Bento, mas também na vida humana. Ajudamos aqueles menos favorecidos, aqueles que necessitam de auxílio humano, tanto na parte física quanto na formação. Então, o mosteiro continua agindo na vida da sociedade desse modo”, afirmou o monge.

Como se tornar um monge?
Atualmente, o Mosteiro de São Bento conta com 25 monges, incluindo os postulantes. Eles passam por diversas etapas de formação, como o postulantado e o noviciado, até professarem os votos perpétuos e se tornarem oficialmente membros da Ordem de São Bento.
Dom Anselmo explicou como funciona essa mudança de vida para quem decide seguir o caminho monástico — palavra que significa justamente “aquele que é um com Deus”.
“A gente deixa uma vida para trás quando entra no mosteiro. Deixa sonhos, projetos, família, amigos, uma história. E começa a construir outra. Mas essa nova história, na verdade, é uma continuidade da nossa vida, porque ela vai se reconstruindo. É um desconstruir para construir em si mesmo. E então a vida segue em todos os seus meios: humano, acadêmico e espiritual”, contou.
A rotina de um monge é bastante disciplinada. Ela envolve estudos, trabalhos e momentos de oração. As atividades vão desde cuidar da horta do mosteiro até tarefas administrativas.
Durante a visita da reportagem, foi possível acompanhar um desses momentos. Ao meio-dia, o sino tocou e vários monges se reuniram na Igreja de São Bento para realizar as orações do dia, entoando o tradicional Canto Gregoriano, um estilo musical do rito romano usado em missas e no ofício monástico.
O valor do silêncio
Outro ponto marcante dentro do mosteiro é o silêncio. Em poucos passos saindo da movimentada Avenida Sete, a sensação é de estar em outro mundo, com um ritmo muito mais leve e contemplativo.
“No silêncio, nós acreditamos que encontramos Deus. Ele nos fala através do silêncio. Mas não é apenas um silêncio exterior; é também um silêncio interior, profundo. Esse silêncio fala das realidades da vida, tanto aqui dentro do mosteiro quanto fora. E ele é tão forte que muitas pessoas vêm até aqui justamente para beber um pouco dessa paz beneditina e levar um pouco desse silêncio para suas próprias vidas”, destacou Dom Anselmo.

Uso do celular
Quem imagina que os monges vivem completamente desconectados da tecnologia se engana. No Mosteiro de São Bento existe até uma sala de informática para uso.
No entanto, há regras: apenas monges que já fizeram os votos perpétuos podem utilizar esses recursos. Os postulantes ainda não têm acesso.
Até para comer existem regras
As refeições também seguem normas específicas dentro do mosteiro. Durante o almoço ou o jantar, por exemplo, sempre há um monge responsável por realizar leituras ou orações enquanto os outros se alimentam.
Na semana da visita do MASSA!, essa função estava com o próprio Dom Anselmo. Segundo ele, o momento de leitura pode durar cerca de 40 minutos antes que todos terminem a refeição. A cada semana, um monge diferente assume essa responsabilidade.

Passeio pelo mosteiro
Depois de uma longa conversa com Dom Anselmo, a reportagem fez um passeio pelos corredores do mosteiro. O espaço é enorme e cheio de história — fácil até se perder por lá para quem não conhece bem o local.
Em vários cantos é possível ver registros do passado de Salvador, como quadros que retratam a cidade no século XIX e móveis antigos que fazem parte da história do mosteiro.
O local também possui uma sala com retratos de papas beneditinos, como Pio VII, Leão IV e Gregório VIII. Enquanto caminhávamos pelos corredores, era possível ver alguns monges passando em silêncio, com passos tão leves que, às vezes, chegavam a surpreender.
Também passamos pelas chamadas celas, que nada mais são do que os quartos onde os monges vivem, conforme mencionado mais acima.
Em um determinado momento, chegamos ao claustro, um dos locais mais silenciosos do mosteiro. Ali fica o cemitério onde estão sepultados monges e benfeitores da instituição.

Uma das lápides é a de Gabriel Soares (1540–1591), agricultor que acumulou fortuna e se tornou senhor de engenho. Ele fez doações para a Ordem de São Bento, mas com uma condição: queria ser sepultado no mosteiro. Em sua lápide está escrito o epitáfio: “Aqui jaz um pecador”.
A imponente biblioteca
Já no final da visita, chegamos a um dos espaços mais impressionantes do mosteiro: a biblioteca. O acervo possui cerca de 300 mil volumes, sendo 13 mil livros raros e sete mil manuscritos.
O documento mais antigo é datado de 1503 e segue perfeitamente preservado. Entre as obras disponíveis também estão clássicos como 'A Interpretação dos Sonhos', de Sigmund Freud, e 'Madame Bovary', romance escrito por Gustave Flaubert.

Canto gregoriano encerra visita
Para finalizar o passeio, a reportagem acompanhou novamente a oração dos monges na Igreja de São Bento. Ao meio-dia, o canto gregoriano tomou conta do ambiente.
O momento de oração, com vozes ecoando pela igreja histórica, cria uma atmosfera única — capaz de hipnotizar qualquer visitante que passa pelo local em busca de alguns minutos de silêncio e reflexão no coração de Salvador.
