A Educação de Jovens e Adultos (EJA) reúne pessoas que, por diferentes razões, interromperam os estudos e retomam a escolarização em outra fase da vida. Em Salvador, no Colégio Estadual Nelson Mandela, no bairro de Periperi, no Subúrbio Ferroviário, essa escolha ocorre após jornadas extensas de trabalho, longos deslocamentos de ônibus e rotinas marcadas por responsabilidades familiares. Ainda assim, as salas permanecem cheias no turno noturno.
Ali, o retorno à unidade educacional não é tratado somente como algo simbólico. Surge como estratégia de sobrevivência. A decisão de retomar os estudos carrega frustrações do passado, mas também projetos para o futuro — faculdade, melhores condições profissionais e autonomia financeira. Nesta terça-feira (28), Dia da Educação, as histórias que atravessam os corredores do colégio mostram que, para muitos moradores da periferia, estudar não é luxo: é necessidade.
Patrícia Lima é uma dessas alunas. Após 15 anos longe da sala de aula, decidiu se matricular novamente em 2024. O longo intervalo marcou um período em que, segundo relata ao MASSA!, perdeu a perspectiva de crescimento pessoal. Mãe de três filhos, ela afirma que a maternidade despertou o desejo de reconstruir planos interrompidos ainda na juventude:
“Perdi mesmo a vontade de estudar e de tomar um rumo na vida, fiquei sem perspectiva. Depois vieram meus filhos: tenho um de 10 anos, um de 6 e outro de 9. Agora eu decidi voltar a estudar, olhar mais para mim e retomar meus sonhos, que incluem ser advogada e ter dignidade.”, conta.

A rotina diária é um dos principais desafios. Patrícia trabalha em Lauro de Freitas, na Região Metropolitana (RMS), e precisa sair ainda no fim da tarde para chegar a tempo às aulas no Subúrbio. O trajeto, feito em transporte público, aumenta o desgaste físico.
“Infelizmente, tem dias em que é difícil, porque eu trabalho em Lauro de Freitas e é complicado chegar aqui. Pego um ônibus às 17h e só chego às 19h. Às vezes durmo e acordo dentro do ônibus e parece que nunca chega. É cansativo, mas estou me esforçando e acredito que vou conseguir, por mim e pelos meus filhos, para garantir um futuro melhor e dignidade para a gente. Quem vive na periferia sabe que precisa do estudo para seguir em frente. Infelizmente, essa é a nossa realidade”, garante.
“Sem formação, eu não consigo um trabalho digno”
A relação entre formação escolar e mercado de trabalho também pesa nessa escolha. Atuando como faxineira e com experiência em buffet, Patrícia diz que sente na pele como a falta de qualificação limita oportunidades. Para ela, o diploma pode abrir portas que atualmente parecem distantes.
“O que me motivou a voltar a estudar foi entender que, sem formação, eu não consigo um trabalho digno. Trabalho em buffet, atuo como faxineira e digo com orgulho que sou faxineira. Ontem mesmo falei com meu filho: ‘Estude, porque ser peão é trabalhar para enriquecer o patrão’. A gente trabalha muito duro por não ter tido acesso a um estudo adequado, infelizmente”, diz à reportagem.
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A história de vida de sua xará e colega de turma, Patrícia Pinheiro, de 52 anos, segue caminho semelhante. Ela também interrompeu os estudos ao formar família ainda jovem. Durante duas décadas, priorizou os filhos e os afazeres domésticos. Com os três já adultos, voltou ao percurso escolar a partir do ponto em que havia parado, no 9° ano do ensino fundamental.
“Abandonei a escola porque formei família cedo e não tive tempo de estudar, muito menos de trabalhar. Não tive oportunidade de fazer mais nada. Hoje meus filhos cresceram, já são adultos, e eu voltei a estudar. Naquela época era muito difícil conciliar os cuidados com os filhos e a escola. Agora tive essa oportunidade que a EJA está me dando e estou muito feliz”, detalha.

O retorno à sala de aula foi marcado por insegurança, especialmente diante do tempo afastada do ambiente escolar. Mesmo assim, ela avançou duas séries em 2024 e agora cursa o último ano do ensino médio, com projeção de etapas seguintes:
“Foi uma emoção, uma alegria e também um frio na barriga, porque achei que não sabia mais de nada, mas tentei e consegui. Fiz duas séries no ano passado e agora estou concluindo o último ano. Vou terminar, com certeza. Quero fazer uma faculdade mais adiante. Já que comecei, quero ir até o fim.”

As trajetórias das duas estudantes refletem um padrão observado pela professora de língua portuguesa Carla Bianca, que atua há 22 anos na EJA e acompanha de perto essas retomadas. Segundo ela aponta ao MASSA!, a maioria dos alunos chega à sala de aula após um dia inteiro de trabalho, o que exige estratégias constantes para manter o interesse e garantir a permanência.
“Trabalhar na EJA é uma satisfação e um desafio. O tempo todo precisamos chamar a atenção dos alunos, porque a evasão é grande. Quando eles se sentem muito cansados, acabam não vindo. Se você não atrai esse estudante para dentro da sala, corre o risco de começar com a turma cheia e finalizar com a turma esvaziada. O objetivo da escola é manter esse aluno na sala de aula”, reflete.

A professora explica ainda que muitos estudantes carregam frustrações antigas e chegam com a autoestima abalada, achando que já “passou da hora”. Por isso, o trabalho em sala exige cuidado e diálogo constante, com respeito ao tempo e a vivência de cada um.
“Quando falamos da EJA, estamos falando de um estudante que exige dedicação e delicadeza, porque lidamos com adultos e adolescentes que estão entrando na fase adulta. Muitos têm dificuldade de se expressar, sentem-se cabisbaixos ou incomodados. Precisamos chamar esse aluno, perguntar sempre: ‘Como é que faz? Vamos lá’, incentivando o tempo todo”, afirma.
Incentivo caseiro
O incentivo, em alguns casos, começa dentro de casa. Roselene de Oliveira, atualmente com 49 anos, voltou a estudar motivada pela filha, que já frequentava a mesma unidade de ensino. Mãe desde os 18 anos, ela interrompeu os estudos para cuidar da família. Por essa razão, ela aponta que sempre quis retomar a formação, mas só agora encaixou a escola na rotina.
“Voltei a estudar em 2024 porque sempre tive essa vontade. O que mais me incentivou foi minha filha, que já estudava aqui, Ela me encorajou a voltar. Me arrependo de ter parado, porque tive três filhos a partir dos 18 anos e precisei cuidar deles. Tentei retornar antes, mas não consegui. Agora estou gostando e pretendo continuar até onde puder”, conta ao MASSA!.

Dividir a sala com colegas mais jovens trouxe receio, mas também satisfação por finalmente realizar um desejo antigo. Ela define o retorno como uma forma de seguir adiante, mesmo ciente das dificuldades.
“Foi uma sensação de medo, por ser mais velha que os outros, mas também de prazer, porque voltei a fazer o que queria. Vou conseguir, com fé em Deus. Sei que terei dificuldades, mas já cheguei até aqui e vou continuar enquanto puder”, aponta.
Entre os planos estão cursos superiores nas áreas de Arquitetura ou Gastronomia, além do desejo de servir de exemplo para os filhos:
“Meu filho já faz faculdade, minha filha também começou. Eu também quero. É um exemplo como mulher concluir meus estudos e saber que consegui. Tenho vontade de fazer arquitetura, mas também gosto de gastronomia.”
Família é elo
A turma reúne ainda estudantes mais jovens, como Uander da Silva, 29 anos. Ele interrompeu o ensino médio no primeiro ano para ajudar a mãe. Hoje trabalha como autônomo em hortifruti e faz serviços de manutenção em computadores e videogames.
“Eu parei atualmente com a escola na época, no primeiro ano do ensino médio, por conta de vários fatores, mas um deles também para ajudar minha mãe. Atualmente não preciso mais fazer isso e decidi voltar e concluir”, revela.

De olho na área de programação, ele considera o diploma um passo obrigatório para crescer profissionalmente. Agora, sua meta é fazer um curso técnico e avançar na tecnologia, setor em que já atua de maneira informal:
“Assim que eu terminar o ensino médio, quero fazer um curso técnico, porque estou entrando oficialmente na área de programação avançada, preciso do diploma para isso. Se eu não tivesse deixado a escola naquela época, talvez já estivesse trabalhando em outro país. Mas, com a ajuda da EJA, para quem trabalha o dia todo e tem uma carga horária pesada, tudo muda da água para o vinho.”

Para a professora Carla, o trabalho na EJA acompanha cada passo dessas histórias e envolve mais do que conteúdo em sala. Ela observa que muitos alunos redescobrem a própria capacidade ao perceber que conseguem aprender e avançar.
“A EJA ensina que, enquanto há vida, sempre haverá esperança e que é preciso, na verdade, estar o tempo todo ressignificando a nossa história”
“Professor na EJA não é somente professor, ele não trabalha apenas com metodologia, não atua apenas ensinando. O professor na EJA constrói uma trajetória junto com o aluno. Ele mostra a esse aluno que existem outras possibilidades de construção e de ressignificação da própria vida. Então, a EJA ensina que, enquanto há vida, sempre haverá esperança e que é preciso, na verdade, é estar o tempo todo ressignificando a nossa história”, conclui.
As histórias que se cruzam nas salas do Subúrbio dialogam com a reflexão do educador Paulo Freire. Em “Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos” (2000), ele escreveu que a “educação tem sentido porque mulheres e homens aprenderam que é aprendendo que se fazem e refazem, porque mulheres e homens podem se assumir como seres capazes de saber.”
E nesta frase se resume uma ideia poderosa: é por meio do aprendizado que as pessoas constroem a própria história e descobrem que são capazes. É nesse desejo de aprender que muitos moradores das periferias se apoiam para seguir em frente. Ter acesso à educação significa abrir espaço para sonhar com novos caminhos e, mais do que isso, transformar esses sonhos em realidade.