Crescer significa, por vezes, amadurecer. E quase sempre esse processo vem acompanhado de responsabilidades, cobranças e da pressa de entrar na vida adulta. Mas nem sempre a juventude abre mão de sonhar, criar e deixar sua marca pelo caminho. No bairro do Barbalho, em Salvador, estudantes do Centro Estadual de Educação Profissional (CEEP) Isaías Alves encontraram na arte uma forma de ocupar a escola para além das salas de aula.
Com pincéis, tintas e latas de spray nas mãos, alunos entre 16 e 30 anos participaram de oficinas de grafite do projeto Arco-Íris, que transformaram os muros da unidade escolar. A mudança, porém, foi além da parte visual. Ao ajudarem a construir aquele espaço, os jovens passaram a se reconhecer nele.
Entre eles está a estudante de teatro Kelly Novaes. Fã de desenhos desde pequena, ela conta que sempre teve interesse pelo universo das artes, mas nunca havia encarado o desafio de pintar uma parede. A oficina acabou se transformando uma oportunidade de colocar a criatividade em prática e conhecer uma linguagem artística diferente da que estava acostumada.
“Eu sempre gostei muito de desenhar. Eu não tenho esse talento para o desenho, mas sempre gostei. E a iniciativa aqui é muito legal para os alunos se expressarem por meio do grafite e da pintura, então está sendo uma experiência muito massa. Eu pintei as letras do nome e achei muito interessante, porque eu nunca tinha pintado realmente uma parede”, revela a jovem ao MASSA!.
Arte que abre caminhos
Uma das responsáveis por conduzir as oficinas foi a grafiteira Monica Reis, considerada uma das pioneiras da arte urbana na capital baiana. Acostumada a ocupar espaços que, durante muito tempo, foram vistos como território masculino, ela enxerga na arte uma ferramenta capaz de abrir caminhos, despertar talentos e mostrar aos jovens que eles também podem se reconhecer no que produzem.

“Eu consigo dizer que a gente quebrou esse tabu de que lugar de mulher é só na cozinha, de que não podemos ocupar esse espaço. Lugar de mulher é onde ela quiser e, além disso, ela pode estar pintando paredes, telas, camisas, viajar o mundo inteiro, conhecer outros lugares e outras técnicas. Saber que nós somos protagonistas das nossas próprias histórias e que estamos dando voz ao nosso trabalho”, completa.

E foi justamente este sentimento de deixar uma marca que chamou a atenção da estudante do ensino técnico Loa Stellaluna. Ao participar da pintura dos muros da escola, ela passou a enxergar o espaço de uma forma diferente. A jovem sentiu que também estava ajudando a construir um pedaço da história daquele lugar.
“É a marca que fica na escola. Eu acho que isso é muito importante, porque a gente acaba se sentindo mais acolhido. É como se realmente fizéssemos parte da história. Dá mais vontade de vir, dá mais vontade de mostrar: ‘Olha, fui eu que participei, fui eu que construí, fui eu que pintei’.”

Também artista e desenhista, Loa afirma à reportagem que as oficinas serviram como aprendizado. O contato com novas técnicas e com profissionais da área reforçou um desejo que ela já carregava dentro de si.
“Eu já desenho, e aprender novas técnicas foi algo que eu vinha procurando. Eu sou artista, então foi uma experiência que me tocou muito, porque ele [o instrutor] estava falando ali e eu pensava: ‘Nossa, é realmente isso que eu quero fazer’. Então, foi uma experiência revolucionária para mim”, aponta a jovem.
Aprender também é experimentar
A experiência vivida pelos alunos também foi percebida por quem acompanha a rotina da escola de perto. Para a diretora da instituição, Maribel Silva, a atividade abriu espaço para que muitos estudantes mostrassem habilidades que nem sempre aparecem no ambiente tradicional de ensino. Segundo ela, jovens com diferentes perfis participaram das oficinas, incluindo alunos portadores de deficiência (PCDs) e do Transtorno do Espectro Autista (TEA).

“Os estudantes estão super empolgados, motivados a mostrar o talento. Inclusive, descobrimos alguns estudantes nossos com deficiência que estão ali fazendo a arte deles. Então, isso também provocou um sentimento de pertencimento muito bacana”, conta.

Por trás das pinturas, o objetivo é justamente fazer com que os estudantes ocupassem o centro educacional de forma mais ativa. De acordo com a presidente do Instituto Burburinho Cultural, Priscila Seixas, a proposta é que eles participem de todas as etapas do processo, desde a discussão das ideias até a execução das pinturas.
“Nosso objetivo é que os alunos coloquem a mão na massa. Então, a gente chega com oficinas de arte-educação, eles desenham, discutem o que querem produzir, e isso está gerando um local de pertencimento, onde a arte começa a invadir a escola devagarzinho.”

Marca que fica
Este sentimento, de acordo com Priscila, costuma aparecer com mais força justamente entre estudantes que nem sempre conseguem se adaptar às formas mais tradicionais de aprendizado. Muitos chegam às atividades sem muito interesse pela rotina escolar, mas acabam encontrando na arte uma maneira diferente de criar vínculos.
“Geralmente, os alunos de projetos como o Arco-Íris são aqueles que têm dificuldade de ficar na sala de aula, porque, na verdade, aprendem de outra forma. Então, quando veem um projeto como esse de arte, eles participam de um jeito muito potente. Com isso, começam a entender a escola de outra forma e a se sentir pertencentes a esse espaço”, diz.

Priscila destaca ainda que os murais permanecem mesmo depois da conclusão dos estudos, funcionando como um registro da passagem daqueles jovens pela instituição.
“As crianças saem da escola, mas o muro fica. Temos experiências de alunos que concluíram o ensino médio e, até hoje, comentam sobre isso porque sentem esse pertencimento. [...] Os estudantes se vendo produzir um conteúdo artístico e se enxergando nele mostra o quanto isso é sensível. Se faz sentir, faz sentido e, com isso, vamos mudando a realidade”, descreve ao MASSA!.

Como diz a canção Lindo Balão Azul, interpretada pelo baiano Moraes Moreira, há quem viva “no mundo da lua”, carregando uma alma criativa e um olhar atento para tudo o que sente. Em tempos marcados pela pressa e pelas telas, exercitar a sensibilidade, seja por meio do grafite ou de outras artes, continua sendo uma forma de expressão e descoberta.