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Pedalar ainda é perigoso? - - Jaísa de Almeida

Interrupções e insegurança desafiam rotina de ciclistas em Salvador

Mesmo com a expansão da rede, usuários apontam desafios para circular pela cidade

Pedalar em Salvador ainda é perigoso? Seja para trabalhar, praticar atividade física ou simplesmente aproveitar o tempo livre, a bicicleta conquistou espaço na rotina de muitos baianos. A capital conta atualmente com cerca de 310 quilômetros de rede cicloviária, entre ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas desde 2021, de acordo com levantamento divulgado pela Prefeitura. No dia a dia, porém, quem depende desse modal afirma que a infraestrutura ainda apresenta desafios, como interrupções no percurso, problemas de conservação, ocupação irregular das faixas exclusivas e sensação de insegurança.

Os desafios aparecem em diferentes pontos da cidade e variam conforme o trajeto. Na orla, por exemplo, a descontinuidade da ciclovia obriga ciclistas a dividirem espaço com carros e ônibus. Em outras regiões, o desgaste do pavimento, a presença de veículos estacionados sobre as faixas exclusivas e a falta de conexão entre os trechos fazem com que o deslocamento deixe de ser contínuo. Para quem depende da bicicleta para trabalhar ou se locomover diariamente, essas situações exigem mudanças constantes no caminho e atenção redobrada.

É essa realidade que o jovem Dauan da Mata conhece de perto. Morador da capital, ele utiliza quase todos os dias as ciclovias e ciclofaixas da região do Rio Vermelho para se deslocar entre o trabalho e as atividades de lazer. Segundo ele, um dos principais problemas está justamente no trecho em que a estrutura destinada às bicicletas deixa de existir, ponto considerado crítico.

“Parte daquele trecho exatamente prejudica todo mundo. Você faz aquela curvinha ali e tem que dividir espaço com os carros que estão saindo do estacionamento, com os ônibus que estão vindo, que chegam a ser o mais perigoso, pois os ônibus normalmente não estão vendo. Sem ciclovia, a gente não consegue criar os trajetos com segurança.”, retrata ao MASSA!.

Duan revela os percalços que enfretam ao usar as ciclovias
Duan revela os percalços que enfretam ao usar as ciclovias | Foto: Shirley Stolze/ Ag. A Tarde

O local citado por Dauan fica entre o Largo da Mariquita e o início do bairro de Amaralina. Apesar de existir uma placa indicando o fim da ciclofaixa, não há uma alternativa para a continuidade do trajeto. A partir dali, quem segue em direção à orla precisa dividir a Rua Odilon Santos com os veículos ou optar pelas calçadas compartilhadas. Para o ciclista, a mudança repentina de percurso também dificulta a vida dos motoristas, que muitas vezes sequer percebem a alteração na via:

“Muita gente nem vê essa placa. Até eu mesmo, quando passo de carro aqui, quase nunca vi essa placa. Então, é difícil até para o motorista ver que acabou a ciclovia. E tem muita gente que precisa da orla inteira para poder fazer seu trajeto com tranquilidade. Eu mesmo estou vindo do Comércio e vou parar em Itapuã. Então, tem partes aqui, daqui para a orla, em que a ciclovia é interrompida.”

Buraco vira perigo

Ao longo do percurso entre o Comércio e Itapuã, Dauan afirma que os problemas não se resumem à interrupção da malha cicloviária. Segundo ele, a falta de manutenção das pistas e a ocupação irregular das ciclovias por outros veículos acabam reduzindo ainda mais o espaço disponível para quem pedala. A consequência, segundo seu relato, é a necessidade de circular pela calçada ou disputar espaço diretamente com os automóveis.

Aspas

Muito buraco, muito parafuso, muita brita, muito, muito acidente. Precisa de fiscalização e manutenção.

"Se a fiscalização passar uma ou duas vezes, já ajuda muito, porque tem muitos carros aqui. Como não tem vaga no passeio, jogam em cima da ciclovia. Então, para a gente, fica horrível, porque a ciclovia já é pequena, né? Tendo carro em cima da ciclovia, a gente sobe no passeio, onde tem espaço, ou vai direto para a pista. Na pista é mais perigoso.”

A percepção de que a infraestrutura ainda apresenta lacunas também é compartilhada por outros usuários da bicicleta. Morador do Rio Vermelho, o pescador Dilson de Lima costuma utilizar a ciclovia da região e acredita que a interrupção dos trechos aumenta o risco de acidentes. Na avaliação dele, a continuidade da estrutura poderia reduzir conflitos entre ciclistas, motoristas e pedestres.

Dilson é pescador da região e usa a ciclofaixa para chegar ao seu local de trabalho
Dilson é pescador da região e usa a ciclofaixa para chegar ao seu local de trabalho | Foto: Shirley Stolze/ Ag. A Tarde

“A pista é muito estreita. Tinham que dar um jeito de continuar a ciclovia para evitar acidentes e também transtornos para nós mesmos. Evitar os hospitais, que, se causarem um acidente, vão ter que disponibilizar leito para cuidar do ciclista. Eu acho um pouquinho irresponsável interromper a ciclovia para deixar o ciclista passar pelo passeio ou pela pista.”

Pedal cheio de perrengue

Situação semelhante é observada em outros pontos da orla soteropolitana. Na Avenida Oceânica, a degradação do pavimento e a falta de integração entre diferentes trechos da malha cicloviária também fazem parte das críticas apresentadas pelos ciclistas. Há dez anos utilizando a bicicleta como principal meio para percorrer a cidade, Marcelo Bastos costuma sair da Pituba em direção ao Farol da Barra e afirma que as intervenções realizadas atualmente não resolvem os principais problemas enfrentados pelos usuários.

Buracos pelas ciclovias na orla de Salvador
Buracos pelas ciclovias na orla de Salvador | Foto: Clara Pessoa/AG A TARDE

“Não tenho visto muita atuação para manutenção das ciclovias, a não ser somente a pintura. E a pintura não é segurança. Pintura é muito boa para o drone, mas não é boa para a segurança do ciclista. As ciclovias têm umas que não ligam nada, são interrompidas.”, expõe.

Marcelo pedala há 10 anos
Marcelo pedala há 10 anos | Foto: Shirley Stolze/ Ag. A Tarde

Marcelo cita ainda outro exemplo de descontinuidade da infraestrutura, desta vez na Avenida Dorival Caymmi, em Itapuã. Segundo ele, o trecho implantado no sentido praia termina de forma abrupta, obrigando o ciclista a mudar de lado da via para acessar uma ciclofaixa frequentemente ocupada por carros estacionados.

“O ciclista ali tem que parar, atravessar a rua e ir para uma pseudo ciclofaixa, porque, ali naquela região principalmente, os carros ficam todos em cima da ciclofaixa. Então, não tem como o ciclista pedalar na ciclofaixa, que deveria ser o lugar, e ele tem que concorrer com os carros na rua. Então, precisa melhorar.”

Segurança vira preocupação

Enquanto alguns ciclistas apontam problemas estruturais, outros afirmam que a principal preocupação está relacionada à segurança pública. Na Avenida Paralela, onde a ciclovia possui um dos maiores trechos contínuos da cidade, o chapista Luis Moura, que pedala há 24 anos, diz que a sinalização atende às necessidades do percurso. Ainda assim, ele evita determinados horários por receio de assaltos.

“Está ótima em questão de sinalização, a questão aqui é a segurança. O cara [assaltante] que faz esse tipo de coisa já tem os horários e tem um [parceiro] que fica lá indicando: ‘Ó, desceu uma bike aí, tal, assim, assim’. É o que acontece aí, dessa forma dão voz de assalto.”, detalha. Segundo Luis, essa situação faz com que muitos ciclistas deixem de utilizar a via sozinhos. Ele conta que parte dos usuários prefere organizar grupos para pedalar ou adapta a rotina para evitar horários considerados de maior vulnerabilidade.

Luis pedala há 24 anos
Luis pedala há 24 anos | Foto: Shirley Stolze/ Ag. A Tarde

“ Fica um ali [assaltante] para atacar no ponto estratégico e fica outro lá em cima, ou lá na frente, para dar o sinal a eles sobre o tipo de bike que é. Essa ciclovia facilita, é ótimo. Você sai do bairro, pega aqui, mas ou você sai em grupo, três, quatro pessoas, ou então tem que ver quais são os horários em que pode usar a via, porque é muito perigoso.”, descreve.

Órgãos se posicionam

Os relatos dos ciclistas ouvidos pela reportagem têm um ponto em comum: a necessidade de manutenção em alguns trechos. Diante dessas reclamações, o MASSA! procurou os órgão competentes para entender por que ainda existem pontos em que a infraestrutura cicloviária é interrompida, como funciona a divisão de responsabilidades pela manutenção e quais medidas estão previstas para ampliar a segurança de quem utiliza a bicicleta na cidade.

Ciclovias e ciclofaixas na orla de Salvador apresentam desgastes
Ciclovias e ciclofaixas na orla de Salvador apresentam desgastes | Foto: Shirley Stolze/ Ag. A TARDE

Em resposta, a Superintendência de Trânsito de Salvador (Transalvador) informou que, entre 2024 e o momento atual, foram implantados aproximadamente 65 quilômetros de infraestrutura cicloviária, entre ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas. Segundo o órgão, a gestão da rede cicloviária é compartilhada entre diferentes secretarias municipais.

Sobre os trechos onde a ciclovia é interrompida, situação relatada por diferentes entrevistados ao longo da reportagem, a Transalvador afirmou que a ampliação da infraestrutura acontece de forma gradual e depende de fatores técnicos e orçamentários.

“A Prefeitura segue trabalhando na expansão da rede cicloviária de forma integrada, conforme as diretrizes do Plano Cicloviário Municipal. A implantação de novos segmentos ocorre de maneira gradual, considerando aspectos técnicos, operacionais, disponibilidade orçamentária e a integração com outros projetos de mobilidade urbana em andamento.”

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Já a Secretaria Municipal de Mobilidade (Semob) informou que continuará articulando ações com os órgãos responsáveis para ampliar a rede cicloviária prevista no Plano Cicloviário de Salvador. Em relação às queixas sobre buracos, desgaste do pavimento e sinalização apagada, a Secretaria de Manutenção da Cidade (Seman) informou que executa serviços de manutenção de forma continuada, incluindo recuperação do pavimento, pintura das ciclovias e recuperação de meio-fio.

Falta de continuidade na ciclofaixa é visível na região do Rio Vermelho
Falta de continuidade na ciclofaixa é visível na região do Rio Vermelho | Foto: Shirley Stolze/ Ag. A TARDE

E sobre aos assaltos apontados nas ciclovias da Avenida Paralela, a Metrô Bahia informou, ao ser procurada pelo MASSA!, que mantém ações permanentes de segurança e atua de forma integrada com as autoridades competentes. A Polícia Militar, por sua vez, comunicou que “o policiamento na região é realizado nas modalidades de permanência e patrulhamento nas imediações da região, além de contar, atualmente, com a modalidade a pé.”.

Com a expansão da rede cicloviária nos últimos anos na capital dos baianos, ampliou-se as opções para quem escolhe a bicicleta como meio de transporte, atividade física ou lazer. Os relatos ouvidos pela reportagem no entanto, mostram que a experiência ainda varia conforme o trecho e o horário.

Os ciclistas defendem que a infraestrutura precisa acompanhar as necessidades de quem utiliza as vias diariamente. Para eles, não basta apenas criar novos quilômetros: é preciso garantir que os trajetos sejam conectados, conservados e seguros ao longo de todo o percurso.

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