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Jejum de carne vermelha - 03/04/2026, 08:00 - Vinicius Portugal

Por que comer peixe na Sexta-Feira da Paixão? Padre explica

Tradição religiosa atravessa séculos, mas divide opiniões entre fé, costume e realidade econômica das famílias

Peixe faz parte de várias receitas na Sexta-Feira da Paixão
Peixe faz parte de várias receitas na Sexta-Feira da Paixão |  Foto: Ilustrativa/Freepik

Entre os dias 29 de março e 5 de abril, do Domingo de Ramos ao Domingo de Páscoa, celebramos a Semana Santa, comemoração católica que representa a paixão, morte e ressurreição de Jesus Cristo. Tradicionalmente, na Sexta-Feira da Paixão é recomendado o jejum de carne vermelha, que é substituída pelo peixe pela maioria dos católicos.

No entanto, será que esse hábito é realmente necessário? Para entender isso, é preciso voltar à origem do costume, que remete ao início do século XI, quando as sextas-feiras foram definidas como um momento de penitência, voltado à espiritualidade e ao sacrifício.

Ou seja, não é apenas na Sexta-Feira Santa que não se deve consumir carne, mas sim em todas as sextas do ano — prática que foi se perdendo ao longo do tempo. O MASSA! conversou com o padre Valson Sandes, da Paróquia Senhor Bom Jesus dos Milagres, localizada no Matatu, em Salvador. Ele explicou o motivo da escolha do peixe e como os fiéis devem proceder nessa data tão importante para os católicos.

“Terminando a missa [de quinta], entra-se já num outro clima, que já é o clima de penitência, de vigília, porque já vamos acordar no dia seguinte, na Sexta-Feira da Paixão, quando a Igreja está vazia, o tabernáculo está vazio, o sacrário está vazio. A Sexta-Feira da Paixão não tem missa em lugar nenhum, apenas a celebração da paixão, que não é uma missa, é uma celebração. Neste dia há o beijo da cruz, a adoração à Santa Cruz, e a sexta-feira é o dia da penitência, por excelência. A Sexta-Feira da Paixão é o dia da penitência. A Igreja recomenda que os cristãos comam peixe às sextas-feiras, mas, de modo especial, para recordar a morte de Cristo, a gente faz jejum e abstinência na sexta-feira”, explicou o sacerdote.

Este é o caso da família de Pablo Carvalho, que segue todos os preceitos da Semana Santa à risca. Segundo ele, comer peixe é mais do que uma tradição: é um sacrifício e uma vivência de fé em Cristo.

Aspas

Aqui em casa, comer peixe é mais do que um costume, é uma tradição que carrega um sentido religioso muito forte. Durante a Quaresma, a Igreja nos convida à penitência, e uma das formas mais vividas é a abstinência de carne, especialmente nas sextas-feiras e de forma mais intensa na Semana Santa. Por isso, o peixe acaba sendo uma escolha comum nesse período, não só por tradição, mas como um sinal de simplicidade, sacrifício e vivência da fé

Pablo Carvalho, estudante de farmácia

Seguindo a Semana Santa

Se a Sexta-Feira da Paixão é dia de penitência e jejum, o mesmo não pode ser dito do Domingo de Páscoa, quando se celebra a ressurreição de Cristo, como explica o padre Valson.

“No sábado ainda se conserva um pouco desse espírito de piedade e introspecção, chamado Sábado de Aleluia. Mas, à noite, a gente já entra na Vigília Pascal, que começa em um clima de escuridão, com as luzes apagadas. Depois, Jesus vence a morte e entra vitorioso. É a ressurreição de Cristo. Domingo é dia de festa. Domingo pode ter vinho, pode ter um rico banquete, pode ter os ovos de Páscoa, que são símbolo de fertilidade. Domingo pode tudo”, explicou.

É necessário comer peixe?

Porém, nem todos seguem a tradição ou têm condições de consumir peixe na sexta-feira sagrada. Em um vídeo que viralizou nas redes sociais, o padre Caio Queiroz, da Igreja Siríaca Ortodoxa de Antioquia, deu sua opinião sobre o costume.

Para ele, o consumo de peixe pode acabar desvirtuando o verdadeiro sentido da Sexta-Feira da Paixão, que é lembrar o sacrifício de Jesus Cristo.

Preço do peixe está bem salgado
Preço do peixe está bem salgado | Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom / Agência Brasil

“Essa história de que na Semana Santa você tem que comer peixe, quem inventou isso aí foi, no mínimo, um peixeiro. Isso está errado, e está errado em todas as formas que você possa imaginar. ‘Mas não, padre, a gente reúne a família pra comer um peixe’. Está errado e está errado do mesmo jeito… ‘E aí a gente reúne a família ao redor da mesa’. E Jesus ficou aonde nessa brincadeira? Sexta-feira Santa não é dia nem sequer de alimentação desregrada. É pra se alimentar com moderação, com jejum, com abstinência, pra se lembrar, pra meditar na dor, na paixão, no sofrimento de Jesus. Pra olhar a entrega máxima que Ele fez por nós. Sexta-feira é dia de guarda, Sexta-Feira Santa é dia de vigilância, é dia de viver com profundidade o mistério da salvação”, disparou.

Preço salgado não ajuda

Em muitos casos, as famílias só consomem peixe quando podem. É o caso de Samuel Cerqueira, que, neste ano, não terá a tradicional ceia por conta dos preços elevados.

“A gente costuma ter o almoço da sexta-feira quando dá, mas não é algo a que a minha mãe se prenda muito. Este ano não vamos realizar porque o preço do peixe está caro demais, então vamos ter um almoço comum, com arroz, feijão e carne mesmo”, disse.

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