27º Salvador, Bahia
previsao diaria
Facebook Instagram
WHATSAPP
Receba notícias no WhatsApp Entre no grupo do MASSA!
Home / Cidades

Oportunidade - 23/05/2026, 07:00 - Lais Machado

Projeto Onda do Saber transforma juventude periférica com fotografia

Cursos gratuitos em fotografia ampliam oportunidades para jovens

Projeto audiovisual para jovens é gratuito
Projeto audiovisual para jovens é gratuito |  Foto: Ag. A Tarde/ Raphael Muller

Cursos gratuitos têm se mostrado uma porta de entrada fundamental para o desenvolvimento profissional de jovens em situação de vulnerabilidade social e também de mulheres negras.

Neste mês, estudantes de Lauro de Freitas e Simões Filho ganharam um novo olhar sobre suas realidades através das lentes da fotografia, graças ao projeto Onda do Saber.

Leia Também:

A iniciativa oferece mais de 200 vagas em atividades formativas gratuitas que estimulam a criatividade, a autonomia e a consciência crítica, priorizando as comunidades periféricas e a inclusão de jovens negras.

O professor, fotógrafo e produtor cultural Isaias Santana, um dos idealizadores do projeto, explica a origem da ação. "O Onda do Saber nasce entre 2018 e 2019, e toma corpo como um grupo cultural. A proposta é levar para dentro da escola o Educomunicação, que é a educação com o audiovisual, com a fotografia".

Isaias Santana
Isaias Santana | Foto: Ag. A TARDE / Raphael Muller

Expansão e conexão com o território

O projeto, que em 2025 já havia lançado um curso de longa duração voltado para quilombolas e povos de matriz africana em parceria com o Banco do Nordeste, agora foca em ampliar o acesso aos equipamentos profissionais diretamente nas escolas. O aprendizado técnico é sempre alinhado com temas sociais e pedagógicos.

"A gente faz uma visita prévia à escola, dialoga com a equipe e a coordenação pedagógica. Na escola Ana Lúcia, por exemplo, falamos sobre meio ambiente e sustentabilidade; na escola Gregório, fizemos plantio de planta, porque entendemos que tudo isso está conectado — tudo isso é educação", pontua Isaias.

No Colégio Estadual de Tempo Integral de Portão (CETIP), em Lauro de Freitas, os estudantes puderam experimentar a teoria e a prática no mesmo dia. "A gente fez uma oficina sobre fotografia, onde a gente fala sobre fotografia com celular e depois apresenta equipamentos profissionais usados em agência, em grupos de reportagem, e eles aprendem a tirar foto".

Da oficina para o mercado de trabalho

Para além de uma atividade recreativa, o Onda do Saber foca na geração de renda e na autonomia financeira. Os alunos interessados podem dar continuidade aos estudos nas aulas fixas que acontecem duas vezes por semana no Colégio Bartolomeu de Gusmão, em Lauro de Freitas.

"O aluno que se interessar pode sair daqui, pode se matricular lá com a gente, fazer de forma gratuita, aprofundar, porque a gente dá um pedaço do processo, mas tem gente que quer viver de fato disso. Alguns já estão fazendo fotografia para bandas locais. A ideia é justamente essa: potencializar, ensinar e orientar, dando condições para que eles possam desejar entrar nesse universo. Muitos não têm poder aquisitivo para comprar equipamentos, que são caros", conclui o idealizador.

Para os estudantes, a oportunidade já começa a desenhar possibilidades de futuro. É o caso de Letícia Lavínia, de 15 anos, aluna do colégio integral de Portão:

"Gosto muito de tirar fotos pelo celular, amo e sou muito perfeccionista. Aí eu visualizo bem se tá enquadrada a foto, então foi bem interessante praticar com a câmera. Pretendo continuar nessa área de fotos, aprender mais, ter esse conhecimento. E ver, né, daqui quando terminar o ensino médio se é uma área realmente que eu quero trabalhar ou investir nisso".

Letícia Lavínia na esquerda
Letícia Lavínia na esquerda | Foto: Ag. A Tarde/ Raphael Muller

Fotografia como documento histórico e pedagógico

O impacto do projeto também foi celebrado pelo corpo docente. Tácio Cardoso, professor de história do CETIP e pós-doutor em difusão do conhecimento pela UFBA, ressaltou como a imersão prática dialoga com a educação formal.

"Os alunos tiveram, primeiro, uma formação sobre os fundamentos da fotografia. Depois, participaram de uma imersão no território, reconhecendo locais de grande valor histórico, cultural e ambiental na própria comunidade. Pensar a fotografia como documento histórico e recurso pedagógico reforça a ideia de que não se pode desconsiderar o território: escola e comunidade caminham juntas e formam um mesmo espaço de produção de conhecimento".

Tácio Cardoso
Tácio Cardoso | Foto: Ag. A Tarde/ Raphael Muller

Retorno às origens: ex-aluno comanda oficinas de audiovisual

Com apenas 21 anos, Miguel Paranhos vive a experiência de transformar a realidade de jovens da periferia por meio da fotografia e da edição de vídeo.

Morador do bairro de Portão, ele retornou ao colégio onde concluiu o ensino médio, mas agora em um papel diferente: o de educador. O convite partiu do professor Tácio, permitindo que Miguel compartilhasse seu conhecimento com alunos que compartilham de sua mesma origem.

"Tive essa honra, essa graça de ser convidado pelo professor Tácio para poder estar realizando [as oficinas] aqui junto com esses meninos. Meninos como eu, que vieram da minha periferia. Ver aqueles olhos realmente brilhando, do mesmo jeito que aconteceu comigo na época que eu estudava, foi realmente algo gratificante", destaca Miguel.

Miguel Paranhos
Miguel Paranhos | Foto: Agência A Tarde/ Raphael Muller

Atualmente, o jovem divide sua rotina de oficineiro com a reta final da formação em Edição de Vídeo pelo Instituto Federal da Bahia (IFBA) e com curso de nível superior em Marketing.

O funcionamento das aulas fixas

As oficinas de audiovisual acontecem de forma regular na instituição de ensino. Miguel explica a dinâmica das aulas:

"São duas vezes na semana, nos dois turnos, tanto o matutino como o vespertino, onde a gente pratica tanto a teoria quanto a prática".

Mais do que aprender a mexer em câmeras e softwares, os estudantes agora aplicam o conhecimento em um projeto real de comunicação institucional. Eles são os responsáveis por abastecer as redes sociais da própria escola.

"Agora a gente está implantando um programa de comunicação para o próprio colégio. Ou seja, os próprios alunos estão gerindo os conteúdos que são postados no Instagram, no YouTube e também no TikTok. Eles mesmos produzem, eles mesmos roteirizam e eles mesmos executam para, de fato, ser feito por eles e para eles também".

Como participar

Uma das grandes vantagens do projeto é a sua abertura para além dos muros da escola, integrando os moradores locais. Segundo o oficineiro, o processo de inscrição é simples e foca no contraturno escolar.

"Como a gente tem um bom diálogo com a própria instituição, o diretor já deixou aberto para pessoas da própria comunidade poderem se inscrever. É somente ir lá, preencher o formulário da oficina e realmente participar. [As aulas acontecem] no período oposto ao que a pessoa estuda. Ou seja, se o estudante estuda pela tarde, ele faz pela manhã; se estuda pela manhã, faz pela tarde".

exclamção leia também