
"Já tocou uma para dormir?". A pergunta, de primeiro momento, pode deixar o leitor surpreso, mas a verdade é que o orgasmo tem benefícios naturais pouco comentados, já que o tema ainda é cercado de tabus.
O mês de julho fechou com uma celebração que poucos conhecem: o Dia Mundial do Orgasmo. A data, que cai no dia 31, começou a ser comemorada em 1999, por iniciativa de lojas britânicas de produtos sensuais, que buscavam aumentar as vendas e, de quebra, incentivar o debate sobre sexualidade.
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Homens e mulheres têm orgasmo, mas uma boa parte das mulheres relata dificuldade para chegar lá. Segundo a psiquiatra Carmita Abdo, em um estudo publicado em 2019, isso costuma acontecer porque o bloqueio já se instala antes, na fase de excitação, uma das etapas da resposta sexual humana.
Para explicar como o orgasmo atua no organismo e quais benefícios ele pode trazer para a saúde, o MASSA! conversou com a sexóloga Raquele Carvalho.
A especialista detalhou por que o prazer sexual pode favorecer o relaxamento, melhorar a qualidade do sono e desmistificou algumas crenças sobre masturbação e sexualidade. Confira:
Homens costumam sentir mais sono após o orgasmo?
Durante e após o orgasmo, o cérebro libera uma combinação de substâncias que muda completamente o estado do corpo. Os níveis de cortisol — o hormônio do estresse — caem, enquanto a ocitocina, ligada aquela sensação de aconchego e vínculo, a serotonina e a prolactina sobem.
É justamente a prolactina a principal responsável por aquela sensação imediata de cansaço e moleza logo depois do 'ápice'.
Nos homens, a prolactina costuma aumentar de forma mais significativa depois da ejaculação, e é aí que surge a ideia de que eles "capotam" depois do sexo, apesar de não ser uma regra:
"Existe um fundo de verdade nessa ideia, mas ela não acontece com todos os homens, nem em todas as relações", pondera a especialista.

Além da ação dos hormônios, há também o chamado período refratário, intervalo necessário para que o corpo masculino se recupere antes de uma nova ereção.
"Essa combinação pode contribuir para o relaxamento e, em muitos homens, favorecer o sono. A resposta do organismo varia de pessoa para pessoa, e também depende de fatores como nível de cansaço, qualidade do sono, estresse, intensidade da relação e até o estado emocional", afirma a sexóloga.
Gozou, dormiu? Nas mulheres, nem sempre
Assim como acontece com os homens, o organismo feminino também libera hormônios ligados ao bem-estar e ao relaxamento após o orgasmo. No entanto, a sonolência nem sempre aparece da mesma forma.
"As mulheres também podem sentir relaxamento e sono depois do orgasmo, mas essa resposta costuma ser mais variável do que nos homens", afirma Raquele.
Segundo a especialista, o corpo feminino também libera ocitocina, endorfinas e dopamina, além de reduzir o cortisol. A diferença é que, por não existir um período refratário obrigatório, muitas mulheres permanecem ativas após o orgasmo:
"Muitas mulheres relatam que após o orgasmo sentem-se mais despertas, mais conectadas com o parceiro e até com desejo de continuar a relação sexual", destaca Raquele.

A sexualidade feminina é bastante diversa, e compreender essa individualidade é fundamental para evitar comparações e expectativas irreais
Sexóloga Raquele Carvalho
Masturbação também pode favorecer uma boa noite de sono
Os benefícios do orgasmo para o relaxamento não dependem da presença de um parceiro. De acordo com Raquele Carvalho, a masturbação provoca respostas fisiológicas muito semelhantes às observadas durante uma relação sexual.
"Quando a pessoa atinge o orgasmo, seja durante uma relação sexual com uma parceria ou por meio da masturbação solo, o organismo desencadeia respostas muito semelhantes", explica.
A liberação dos hormônios citados segue o mesmo padrão, o que ajuda muita gente a adormecer com mais facilidade. Ainda assim, a especialista faz um alerta:
"Ela pode sim favorecer o relaxamento e facilitar o sono para algumas pessoas, mas não substitui hábitos saudáveis, nem tratamentos indicados para quem sofre de insônia ou outros distúrbios do sono."

Tabus ainda cercam a masturbação e o autocuidado
Apesar dos benefícios já conhecidos pela ciência, a masturbação continua sendo alvo de preconceitos e desinformação. Para Raquele Carvalho, isso é resultado de crenças culturais e religiosas que atravessaram gerações:
"Durante muito tempo a masturbação foi cercada por mitos, crenças religiosas, tabus culturais e muita desinformação. Muita gente cresceu ouvindo que ela fazia mal à saúde, causava doenças ou era motivo de vergonha. Hoje, sabemos que essas ideias não têm respaldo científico", afirma.
Segundo ela, conhecer o próprio corpo também contribui para relações mais saudáveis, já que facilita a comunicação sobre desejos e limites.
"O mais importante é entender que autocuidado não é fazer algo porque todo mundo faz, é fazer escolhas conscientes, respeitando o próprio corpo, os próprios valores e aquilo que faz sentido para a sua vida", conclui Raquele.
Orgasmo ajuda a relaxar, mas não substitui tratamento
Embora o orgasmo possa favorecer o relaxamento e contribuir para uma noite de sono melhor, ele não deve ser encarado como alternativa para tratar a insônia. "O orgasmo não deve ser visto como um remédio, nem substituir um tratamento indicado por um profissional de saúde", afirma Raquele.
A saúde sexual faz parte da saúde como um todo, mas ela não substitui os cuidados médicos quando eles são necessários
Sexóloga Raquele Carvalho
Ainda assim, a especialista defende que vale refletir sobre os hábitos adotados antes de dormir.
"Entre passar uma hora rolando o celular, consumindo conteúdos que muitas vezes aumentam a ansiedade, e escolher uma atividade que promova relaxamento e bem-estar, vale a pena refletir sobre quais hábitos realmente contribuem para uma noite de sono de qualidade", finalizou.
*Sob a supervisão da editora Amanda Souza

