
"É penta! É penta! É penta!". A narração histórica de Galvão Bueno ainda arrepia qualquer torcedor brasileiro. Mas a verdade é que já se passaram 24 anos desde a última vez que a Seleção Brasileira levantou a taça da Copa do Mundo.
Em 30 de junho de 2002, o Brasil derrotou a Alemanha por 2 a 0, com dois gols de Ronaldo Fenômeno, e conquistou o pentacampeonato mundial no Japão. Foi a primeira Copa disputada na Ásia e também a primeira realizada em dois países, Japão e Coreia do Sul.
O que muita gente não percebe é que boa parte dos jovens que hoje lotam estádios, fazem memes nas redes sociais e, discutem futebol na internet, sequer tinha nascido quando Cafu ergueu a taça.
E o mundo daquela época era quase outro planeta.
Adeus, WhatsApp. Olá, telefone fixo
Em 2002, ninguém mandava áudio no WhatsApp porque o aplicativo nem existia. Aliás, nem WhatsApp, Instagram, TikTok, Facebook ou Orkut faziam parte da vida dos brasileiros.
Quem queria conversar pela internet usava MSN, Messenger ou ICQ. E havia um detalhe cruel: a internet era discada.
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Para entrar na rede, o computador precisava ocupar a linha telefônica da casa. Se alguém resolvesse fazer uma ligação, a conexão caía na mesma hora. O famoso barulho da internet conectando virou uma das marcas daquela geração.
O celular era um tijolão
Esqueça câmera de alta resolução, reconhecimento facial ou inteligência artificial. O sonho de consumo em 2002 era um Nokia com o jogo da cobrinha. Os celulares tinham telas minúsculas, quase não acessavam internet e mandar uma mensagem de texto custava dinheiro. Fazer uma videochamada? Parecia coisa de filme de ficção científica.

As ruas viravam estádios
Talvez a maior diferença entre 2002 e os dias atuais estivesse fora das telas. Quando a Copa chegava, os bairros inteiros entravam no clima. As ruas eram pintadas de verde e amarelo, bandeirolas cruzavam quarteirões e os vizinhos se reuniam para decorar cada pedaço da comunidade.
Por causa do fuso horário do Japão e da Coreia do Sul, muita gente acordava ainda de madrugada para assistir às partidas. Escolas alteravam horários, empresas flexibilizavam expedientes e famílias inteiras se reuniam na frente da televisão.

O futebol também era diferente
Dentro das quatro linhas, várias cenas comuns em 2002 desapareceram com o passar dos anos.
Era normal ver jogadores usando a camisa por dentro do calção durante os 90 minutos. Os uniformes eram mais largos e as chuteiras bem menos tecnológicas do que as atuais.
Outra curiosidade é que aquela Copa foi a última antes da punição automática para quem tirasse a camisa na comemoração de um gol. Hoje o cartão amarelo é obrigatório, mas a regra só passou a valer após o Mundial daquele ano.
Outra mudança foi no 'gol de ouro'. Caso a partida terminasse empatada e fosse para a prorrogação, quem fizesse o gol primeiro vencia o confronto, que não precisava completar 30 minutos extras.

A arbitragem também não contava com VAR, tecnologia de impedimento semiautomático ou revisões em vídeo. Tudo era decidido na hora.
A Seleção que virou lenda
A campanha brasileira ajuda a explicar por que o penta continua tão vivo na memória do torcedor.
O time comandado por Luiz Felipe Scolari foi campeão invicto. Ronaldo terminou como artilheiro da Copa com oito gols, enquanto Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho formaram um dos ataques mais temidos da história recente do futebol mundial.
Do gol defendido por Marcos ao erro de Oliver Kahn na final contra a Alemanha, aquele elenco entrou definitivamente para a galeria dos maiores times da Seleção.
Brasileirão tinha mata-mata e Robinho era promessa
Quem acompanha futebol hoje talvez nem imagine, mas em 2002 o Campeonato Brasileiro era completamente diferente.
A competição ainda não era disputada por pontos corridos. Os clubes jogavam uma fase classificatória e depois avançavam para o mata-mata, sendo essa a última edição nesse formato.
Aquele Brasileirão ficou marcado pelo surgimento dos "Meninos da Vila". Liderado por Robinho e Diego, o Santos conquistou o título nacional ao derrotar o Corinthians na decisão.
À época, Robinho ainda era uma promessa do futebol brasileiro. Hoje, seu nome não é só lembrado pelo talento dentro de campo, mas pela condenação por abuso sexual.

E a dupla Ba-Vi?
Enquanto o Brasil comemorava o pentacampeonato, Bahia e Vitória também viveram uma temporada movimentada, marcada por títulos e protagonismo regional.
O Bahia conquistou a Copa do Nordeste pela segunda vez consecutiva. O Tricolor levantou a taça justamente em cima do maior rival, o Vitória, em uma final histórica. Após vencer o primeiro jogo por 3 a 1 na Fonte Nova, segurou um empate por 2 a 2 no Barradão e ficou com o título regional. O elenco tinha nomes como Sérgio Alves, Robgol, Nonato e o jovem Daniel Alves, que começava a despontar para o futebol nacional.
Já o Vitória deu o troco no cenário estadual. O Rubro-Negro conquistou o Campeonato Baiano de 2002 ao derrotar o Fluminense de Feira na decisão do chamado Supercampeonato Baiano. Depois de um empate sem gols no primeiro confronto, o Leão aplicou uma goleada por 5 a 0 no jogo de volta e garantiu mais uma taça para sua galeria. O time contava com jogadores como Nadson, Fernando, Leandro Ávila e Marcelo Heleno.
No Campeonato Brasileiro, porém, a dupla baiana ficou longe da briga pelo título nacional. O Vitória terminou a primeira fase na 15ª colocação, enquanto o Bahia ficou em 19º lugar. Nenhum dos dois conseguiu avançar para a fase decisiva do torneio.
O mundo mudou. O hexa não veio.
De lá para cá, o mundo ganhou smartphones, redes sociais, streaming, Pix e inteligência artificial.
O Brasil trocou o MSN pelo WhatsApp, a TV de tubo pelas telas gigantes e os álbuns de fotografia pelas galerias do celular.
Bahia e Vitória passaram por rebaixamentos, acessos, títulos e transformações profundas. O Brasileirão abandonou o mata-mata e adotou os pontos corridos. O futebol ficou mais rápido, mais tecnológico e mais globalizado, mas uma coisa continua igual: a espera pelo hexa.
