
Um mar carregado de histórias, tradições e vivências vai desaguar nos palcos de Salvador. A partir de dessa sexta-feira (21), a capital baiana recebe o espetáculo Gota d'Água, uma adaptação da obra de Chico Buarque e Paulo Pontes. A nova montagem utiliza o cotidiano das marisqueiras como inspiração para elementos cênicos. A apresentação rola nesta sexta-feira (21), às 20h, na Caixa Cultural - Unidade Carlos Gomes.
A peça ficará em cartaz até o dia 30 de agosto e se apropria de elementos como a areia, lama e redes de pescas para construir uma atmosfera digna de uma verdadeira praia. A trama acompanha Joana, uma mulher que tem sua vida transformada após ser abandonada pelo marido, Jasão. A história retrata temas como abandono, exclusão, desigualdade, dentre outros. O universo das marisqueiras foi essencial para que a nova adaptação conversasse com o público baiano.
“O desejo de montar esse espetáculo é antigo. Quando resolvemos que iríamos montar, ficamos nos perguntando como esse espetáculo se aproxima dessa regionalidade de Salvador, porque originalmente essa é uma tragédia carioca, mas não queríamos trazer referências do Rio de Janeiro. Então, mergulhamos nos aspectos estéticos, culturais e sensoriais do Subúrbio”, disse Augusto Nascimento, ator e codiretor do Gota d'Água, em entrevista ao MASSA!.
A pesquisa foi um passo fundamental para a construção visual. A equipe do projeto realizou diversas visitas ao Subúrbio Ferroviário para coletar referências e inspirações sobre a vida de quem vive próximo ao mar. “Colocamos eles no protagonismo. Toda nossa encenação, construção, movimentação e os cenários, tudo é inspirado nesse lugar e nessas pessoas. É sobre colocar eles no foco da narrativa”, pontuou
Além de assinar a direção, Augusto também vive Jasão em cima dos palcos. Dividindo sua atenção entre a atuação e a coordenação do projeto, o baiano ressaltou os desafios de cada uma das funções. “São duas funções muito desafiadoras. Eu acho que essa coisa da idealização, de fazer o projeto acontecer, é muito trabalhoso, custoso, mas também muito prazeroso. Estar em cena é muito desafiador, mas são sabores diferentes”, contou.
O ator conta que, durante seu processo criativo, buscou trazer um pouco de humanidade para seu papel. O principal esforço foi que seu personagem não se tornasse apenas uma caricatura do homem machista. “O desafio de fazer Jasão é justamente trazer uma humanidade para esse personagem, porque é muito fácil a gente cair na caricatura, na embalagem do macho escroto. Apesar dele ter sim muitos traços machistas, ser estruturado nessa coisa do patriarcado, ele também tem sua humanidade”.

Mesmo sendo essencialmente um musical, o foco da apresentação não são as músicas. O movimento, a potência do texto e as temáticas sociais são os pilares que sustentam a trama. Evana Jeyssan, que interpreta Joana, enfatiza o privilégio de poder protagonizar a peça. “Eu sou muito grata por tudo o que está acontecendo, as premiações, o reconhecimento, e também estar crescendo junto com esse personagem, me entendendo como atriz, como mulher negra periférica”, destacou.
Trazer holofotes para as vivências das marisqueiras foi uma grande realização para a artista. A profissão acaba carregando um significado simbólico para sua personagem. “As marisqueiras vieram como uma base estética para a gente conseguir dar corpo a essa personagem. Poder homenagear essas mulheres, poder homenagear o Subúrbio Ferroviário, é uma preciosidade. A história de Joana vem exatamente desse lugar de lama que entrou em ascensão”, contou.
A identificação é uma certeza para o público feminino. A personagem de Evana não é apenas uma trabalhadora do mar, mas também uma representação da mulher brasileira e suas faces. “Ela é uma representação da mulher brasileira, da mulher preta, da mulher periférica que sofre tanto com a desigualdade, descriminação e violências. Ela serve como base, como cuidado, de toda a sociedade e muitas vezes se mutila para que isso possa existir”, acrescentou a atriz.
A narrativa de Gota d'Água fala sobre urgências de nosso tempo. Para além do abandono e machismo, a montagem dialoga com questões que se conectam com o contemporâneo. “Joana fala de outras urgências, não só sobre o abandono. Ela fala sobre essas mulheres que estão na margem, da potência dessas mulheres que estão na margem e movimentam a sociedade. É pelo nosso trabalho, pelo trabalho de mulheres pretas, que a gente move o Brasil, as estruturas da sociedade”, finalizou.

