A escalada da disputa entre facções em Salvador e na Região Metropolitana (RMS) tem produzido reflexos que ultrapassam as divisas da Bahia. Nos últimos anos, integrantes de organizações criminosas passaram a deixar áreas marcadas por confrontos armados para se estabelecer em Sergipe, estado que se tornou um dos principais destinos de lideranças e operadores ligados ao tráfico de drogas, especialmente membros das facções Bonde do Maluco (BDM) e Comando Vermelho (CV).
A mudança não significa rompimento com as atividades criminosas. Mesmo instalados em Aracaju e cidades vizinhas, muitos continuam influenciando decisões, mantendo contato com comparsas e acompanhando a movimentação de seus territórios de origem. O deslocamento ocorre principalmente entre integrantes que ocupam posições mais altas dentro da estrutura dos grupos.
O delegado Eduardo Badaró, da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado na Bahia (FICCO-BA), afirma ao MASSA! que a saída desses criminosos costuma ocorrer por uma combinação de fatores ligados à segurança e ao próprio funcionamento da criminalidade.
“O primeiro motivo é fugir da ação policial e da responsabilização judicial pelos crimes praticados. O segundo é se afastar justamente do caos que ele mesmo proporciona. Em regiões onde incentiva o crime e o controle territorial armado, esse clima de violência acaba retornando para ele e para os familiares.”, aponta.

A curta distância entre Bahia e Sergipe é um dos principais fatores que ajudam a explicar esta conexão. Diferentemente de estados mais distantes, o território sergipano permite que lideranças criminosas fiquem próximas das áreas onde exercem influência sem precisar permanecer nos locais mais afetados pela violência.
Aracaju e as cidades do entorno acabam sendo uma opção porque ficam perto da Bahia e, em poucas horas, ele consegue retornar.
Eduardo Badaró, delegado da FICCO
A facilidade de deslocamento possibilita viagens rápidas entre os dois estados, o que mantém vivos os vínculos com as organizações. Assim, mesmo morando longe dos bairros controlados pelas facções, muitos continuam participando de decisões e acompanhando o funcionamento dos grupos.
“Quando o indivíduo pertence a uma facção criminosa e alcança determinada função ou hierarquia dentro do grupo, ele tende a se afastar para tentar aproveitar os frutos e os produtos do crime.”, avalia Badaró.
BDM e CV em Sergipe
Entre as organizações que utilizam a rota estão o Bonde do Maluco e o Comando Vermelho, com forte atuação na capital baiana e municípios da RMS. No entanto, o BDM tem marcado mais território no estado vizinho. A presença de integrantes ligados às facções, entre os foragidos localizados em Sergipe, reforça um movimento observado pelas forças de segurança nos últimos anos.

A dimensão desse fluxo ficou mais evidente após uma sequência de operações policiais que resultaram na localização de criminosos baianos em território sergipano. Os casos revelaram que cidades do estado vizinho passaram a ser utilizadas como ponto de apoio por integrantes de grupos criminosos que buscavam se afastar da pressão policial e dos conflitos armados.
Em 2024, o traficante Renê Mateus dos Santos Júnior, conhecido como Tio Chico, investigado por liderar o CV na Bahia, morreu durante confronto com forças de segurança na Orla de Atalaia, em Aracaju.
No mesmo ano, Rogério Ferreira Sampaio, o Patolino, ex-Rei de Copas do Baralho do Crime da Secretaria da Segurança Pública (SSP-BA), também morreu em uma ação policial na capital sergipana. Ele era apontado como líder de uma organização envolvida com tráfico de drogas e armas, homicídios, roubos, porte ilegal de arma de fogo e corrupção de menores na Região Metropolitana.

Os registros continuaram nos anos seguintes. Em dezembro de 2025, um homem conhecido como Galinha, investigado por integrar um grupo criminoso baiano, foi localizado em um condomínio de luxo em Barra dos Coqueiros, município da Região Metropolitana de Aracaju. Já em maio deste ano, um homem identificado como Leandro, apontado pelas autoridades como integrante de uma facção atuante na região do Planeta dos Macacos, em Salvador, foi preso na cidade de São Cristóvão, também no interior sergipano.
Rede de apoio fortalece a conexão
Embora a proximidade geográfica facilite o deslocamento, ela não é suficiente para explicar sozinha o fenômeno. A expansão das facções pelo Nordeste criou uma rede de apoio entre criminosos de diferentes estados, permitindo que integrantes destes grupos encontrem abrigo, proteção e suporte logístico fora de suas áreas de atuação.
Na prática, membros de organizações baianas conseguem se esconder em regiões onde possuem aliados. O mesmo acontece com criminosos sergipanos, que também recorrem à Bahia quando precisam fugir da polícia ou de organizações rivais.
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A cooperação entre as forças de segurança dos estados tem aumentado a pressão sobre essa estrutura. Operações conjuntas e compartilhamento de informações vêm reduzindo o espaço para a atuação dessas lideranças fora dos estados de origem.
“A tendência é reduzir esse intercâmbio de criminosos, principalmente porque estamos demonstrando que conseguimos alcançá-los onde estiverem. Isso gera um problema para a facção que recebe essas lideranças ou esses gerentes operacionais de outros estados.”, complementa Badaró.
Estado mais tranquilo atrai foragidos
Além da proximidade, Sergipe oferece outras características que acabam atraindo integrantes de organizações criminosas. O estado registra índices de violência menores e não possui áreas sob domínio consolidado de facções, nos moldes observados em Salvador e em outras capitais brasileiras.
Integrante do Centro de Operações Policiais Especiais (COPE) de Sergipe, o delegado Hilton Duarte pontua ao MASSA! que o fenômeno é uma realidade monitorada pelas autoridades: “Nós temos acompanhado realmente essa migração de alguns nomes ligados a facções criminosas, principalmente de facções baianas.”, relata.

A movimentação também provocou mudanças no perfil dos locais escolhidos para servir de refúgio. Com maior disponibilidade financeira, algumas lideranças passaram a buscar imóveis em condomínios fechados, especialmente na Barra dos Coqueiros, município vizinho a Aracaju. O controle de acesso, a estrutura de segurança e a possibilidade de manter uma rotina longe da exposição estão entre os fatores que tornam esses espaços atrativos.
Apesar disso, permanecer fora do radar nem sempre é tarefa simples. Em determinadas situações, denúncias de moradores ajudam a direcionar as apurações. Na maioria dos casos, no entanto, as capturas são resultado do compartilhamento de informações entre setores de inteligência e forças policiais dos dois estados.

Para Duarte, a localização estratégica e o perfil do estado ajudam a explicar por que criminosos de diferentes regiões escolhem Sergipe como destino.
“Eles ficam aqui com o intuito de se esconder das forças policiais dos estados de origem e também evitar confrontos com facções rivais. Sergipe é um estado tranquilo e isso faz com que esses elementos venham para cá .”, reforça o agente.
Rota inversa também é utilizada
A circulação, no entanto, não acontece apenas em direção ao território sergipano. A mesma rota utilizada por criminosos da Bahia também serve como alternativa para integrantes de grupos sediados em Sergipe, que buscam deixar suas áreas de atuação.
Um dos casos ocorreu em 2024, quando Cariosvaldo Ramos, apontado como responsável pelo tráfico de drogas nos bairros Santa Maria e Marivan, em Aracaju, foi localizado em Camaçari, na RMS.

Em dezembro de 2025, outro líder sergipano acabou encontrado na Bahia. Identificado como Felipe Santos Sena, conhecido como Felipe Blog, ele foi preso no distrito de Jauá, também em Camaçari.

O homem era investigado por comandar uma facção com atuação nos bairros Japãozinho e Lamarão, na zona norte da capital sergipana. Segundo as apurações, ele era responsável por definir alvos, fornecer executores, disponibilizar armamentos e coordenar a logística das ações criminosas do grupo.
Sistema prisional dificulta expansão
Apesar da presença crescente, o delegado Hilton relata que Sergipe ainda não registra o mesmo modelo de domínio territorial observado em Salvador. Entre os fatores apontados para isso está a forma como o sistema prisional local monitora integrantes de organizações criminosas.
Nas palavras do profissional, o estado mantém mecanismos de identificação, catalogação, separação e acompanhamento de detentos ligados a facções, medida considerada importante para evitar o fortalecimento desses grupos dentro e fora dos presídios.

Características geográficas também entram nessa conta. Com território menor e uma malha rodoviária mais reduzida, Sergipe apresenta obstáculos que dificultam a expansão dessas estruturas criminosas.
Sergipe é um estado menor, com uma malha rodoviária mais reduzida e que funciona muito como passagem para polos maiores, como Pernambuco, Ceará e Bahia.
“É como se aqui eles viessem para sair um pouco do holofote da polícia local e também evitar represálias de facções rivais [...] Esses elementos costumam atuar bastante em locais específicos”, acrescenta o delegado sergipano.
Sendo assim, os casos de prisões e mortes registrados em ambos estados ajudam a desenhar um mapa cada vez mais frequente na atuação das facções do Nordeste. Nele, Bahia e Sergipe aparecem conectados pela geografia e também pela circulação de criminosos que cruzam as divisas em busca de abrigo, apoio e distância dos conflitos travados em seus estados de origem.