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Virou rotina! - - Atualizado em

Como o pastel virou símbolo do populismo na política brasileira

De comida popular a ferramenta eleitoral, o pastel virou um dos símbolos mais usados por políticos para construir uma imagem de proximidade com o povo

Comer pastel na feira virou ato religioso de quase todos os políticos
Comer pastel na feira virou ato religioso de quase todos os políticos |  Foto: Reprodução/Telegram

É só começar uma eleição que a cena se repete: político na feira, cercado por eleitores, apertando mãos, tirando fotos e, em algum momento, com um pastel na mão e um copo de caldo de cana ao lado, muitos até com nojo. Pode mudar o partido, a ideologia ou o cargo disputado, mas o roteiro costuma ser o mesmo. O pastel virou uma espécie de figurante obrigatório da política brasileira.

A cena pode parecer banal, mas diz bastante sobre a maneira como candidatos tentam construir uma imagem diante do eleitor. Comer pastel não transforma ninguém em “gente do povo”, obviamente. No entanto, a fotografia transmite essa sensação de proximidade em poucos segundos, sem precisar de discurso.

É basicamente uma forma simples de mostrar que aquele político, apesar do terno, da equipe de assessores e da rotina de gabinete, também frequenta os mesmos lugares e come as mesmas coisas que uma parcela enorme da população.

Da feira para a campanha

Não é por acaso que a feira se tornou um dos cenários preferidos para esse tipo de registro. Ela está justamente no extremo oposto dos espaços associados ao poder. Não há plenário, palácio ou reunião fechada. Há barracas, vendedores, clientes, barulho e comida de rua. Quando o político entra nesse ambiente, a imagem ajuda a diminuir, pelo menos visualmente, a distância entre quem pede voto e quem está sendo chamado a votar.

Essa tentativa de se apresentar como alguém próximo do cidadão comum conversa diretamente com uma característica muito presente na comunicação populista. O conceito de populismo é amplo e discutido por diferentes correntes da ciência política, mas uma das ideias mais recorrentes é a construção de uma oposição entre “o povo” e uma elite que estaria distante dos interesses da maioria. Nesse contexto, o político precisa mostrar que está do lado certo dessa divisão.

O pastel ainda carrega outro elemento importante: ele é reconhecido praticamente sem explicação. Não é necessário conhecer o candidato, seu programa de governo ou sua trajetória para entender a fotografia. A imagem de alguém comendo na feira produz imediatamente uma ideia de simplicidade e cotidiano. É uma linguagem especialmente útil em tempos de redes sociais, quando uma fotografia pode alcançar milhares de pessoas antes mesmo que elas tenham lido uma única proposta daquele candidato.

Um símbolo que já era popular

A própria história do pastel ajuda a entender por que ele ganhou esse espaço no imaginário popular. Apesar de hoje ser tratado como uma das comidas mais tradicionais das feiras brasileiras, o pastel tem influência de culturas asiáticas e ganhou força no Brasil a partir da adaptação de receitas trazidas por imigrantes, especialmente japoneses. Ao longo do século XX, foi incorporado às feiras e se espalhou pelo país.

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E talvez seja essa capacidade de atravessar diferentes grupos que explique sua força como símbolo. O pastel não pertence a uma classe social específica e também não tem ideologia. Pode estar na mão de um trabalhador, de um aposentado, de uma criança ou de um político em campanha. É barato, rápido e popular. Para uma comunicação eleitoral que precisa transmitir uma mensagem em poucos segundos, é quase perfeito.

Quando a imagem vale mais que o conteúdo

O problema começa quando essa imagem de proximidade passa a ocupar o espaço que deveria ser destinado ao conteúdo.

Não existe nada de errado em um político comer pastel. O eleitor não deveria desconfiar automaticamente de uma fotografia dessas, como se comer na feira fosse algum tipo de crime eleitoral. A questão é outra: até que ponto a cena representa uma relação verdadeira com aquele público e até que ponto é apenas uma estratégia de comunicação?

Um candidato pode passar uma manhã na feira, conversar com comerciantes, comer pastel e publicar dezenas de fotos. Nada disso necessariamente diz como ele pretende governar. Também não explica quanto pretende gastar, quais serão suas prioridades ou quais grupos terão influência sobre suas decisões.

A política brasileira sempre teve personagens que construíram sua imagem a partir dessa ideia de proximidade. O “homem do povo”, o político que fala como o cidadão comum, que frequenta os mesmos lugares, que come a mesma comida e que faz questão de demonstrar que não pertence à elite. O discurso muda conforme a época e o candidato, mas a estratégia continua funcionando porque explora uma necessidade bastante humana: a vontade de se identificar com quem está pedindo confiança.

Os tucanos Geraldo Alckmin e Aécio Neves comendo pastel
Os tucanos Geraldo Alckmin e Aécio Neves comendo pastel | Foto: Divulgação/PSDB

O pastel também virou conteúdo

As redes sociais apenas aceleraram esse processo. Hoje, o político não precisa depender de um fotógrafo de jornal para registrar o momento. A própria equipe pode produzir a imagem, escolher o melhor ângulo, editar o vídeo e distribuir tudo diretamente para os eleitores. O pastel deixa de ser apenas uma refeição e passa a ser parte de uma narrativa.

É por isso que a cena atravessa partidos e ideologias. Políticos de esquerda, direita e centro podem recorrer à mesma fotografia porque o pastel não comunica uma proposta política específica. Comunica proximidade. Cada candidato pode colocar sua própria narrativa em cima daquela imagem, mas o objetivo inicial é quase sempre o mesmo: reduzir a distância entre o político e o eleitor.

E existe uma certa ironia nisso. Quanto mais profissional fica a comunicação política, mais espontânea ela precisa parecer.

A foto do candidato comendo pastel parece um momento casual, mas muitas vezes é cuidadosamente produzido. Existe equipe, câmera, enquadramento, postagem, legenda e estratégia por trás de algo que deveria parecer simplesmente uma pessoa parando para almoçar.

Isso não significa que toda foto seja falsa. O candidato pode realmente gostar de pastel, frequentar a feira e conversar com aquelas pessoas. Mas, quando a imagem aparece durante uma campanha, ela também está cumprindo uma função eleitoral. Fingir que isso não existe é ignorar como a política funciona.

No fim, é só um pastel

Talvez o pastel tenha virado símbolo do populismo brasileiro justamente porque consegue resumir uma ideia complexa em uma imagem extremamente simples: “eu sou como você”.

Só que uma eleição não deveria terminar nessa fotografia. O eleitor pode até querer saber qual é o recheio preferido do candidato, mas é muito mais importante saber o que ele pretende fazer quando estiver no poder, quem estará ao seu lado e quais decisões serão tomadas quando as câmeras forem embora.

Porque o pastel pode acabar em cinco minutos, mas o mandato permanece por, pelo menos, 4 anos.

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