
Ano Novo nem sempre significa vida nova, pelo menos não para todos. E até que ponto as expectativas, os planos e sonhos não concretizados no ano anterior podem influenciar negativamente no novo ciclo que se inicia? A verdade é que não existe resposta padrão para essa pergunta, já que cada ser humano é individual e lida de diferentes maneiras com as frustrações e imprevistos da vida.
O que há em comum em todas as pessoas é a presença de um órgão chamado cérebro, considerado pela medicina o mais complexo do corpo humano, sendo capaz, inclusive, de provocar uma série de sensações e sentimentos.
A mente de quem passou 365 dias tentando realizar um ou mais objetivos, mas que por diversos motivos não foram alcançados, pode desencadear os mais diversos sentimentos, variando desde a fúria até a ansiedade e, em alguns casos, a depressão. Mas afinal, de que maneira não se abalar tanto diante da frustração de adiar algo que se busca há tempos?
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Esse é um assunto para quem entende e a resposta para esse e outros questionamentos acerca dessa temática será esclarecida pela psicóloga Kallila Barbosa. "Nosso cérebro é muito bom em prever as coisas. E uma virada de calendário para ele funciona como um marco simbólico. Então, a partir daquele momento do ano, a gente dá a possibilidade de escrever algo novo ali e isso dá alguma esperança, porém, também vai gerar alguma ilusão, né? Isso porque parece que a gente meio que apaga tudo que está vivendo ou que viveu e começa a achar que é o ano novo que vai trazer a possibilidade da gente fazer diferente, de mudar. A gente, em alguma medida, se afunda numa ilusão de que só porque o calendário mudou, a gente muda. E não é assim efetivamente que a coisa funciona", alertou.
Estabelecendo suas metas
Parece bobagem, mas não é! A especialista também chama atenção para a maneira como as pessoas enxergam os planos pessoais, normalmente chamados de metas. "Eu diria que, talvez, a coisa mais viável é a gente ser mais gentil com essas tais metas. Mas assim, se a gente parar pra analisar, quem tem meta é a empresa, né?", disse
A gente precisa passar a construir essas metas com margens de erro.
Kallila Barbosa

"A gente, em verdade, constrói essas metas de consumo, que envolve dinheiro. Como por exemplos: ser promovido, comprar uma casa na praia, comprar um carro novo.Está tudo muito alinhado à lógica do consumo do sistema de capital. A gente podia querer abraçar mais, ter mais tempo de bobeira com nossos amores, querer encontrar nossas amigas duas vezes no mês, ao invés de uma vez a cada seis meses. Poderíamos fazer metas que nutrissem outros aspectos da nossa vida que não aquilo que a gente posta no Instagram", completou a psicóloga.
Pequenos hábitos podem ajudar
Ainda conforme orientações de Kallila, atitudes simples como colocar a mão onde o braço alcança, subir um degrau de cada vez, não se comparar com outras pessoas e seguir em frente, entretanto, com os pés no chão e atento à sua própria realidade, podem evitar frustrações e, consequentemente, isentar a mente de sentimentos caóticos.
A gente precisa passar a construir essas metas com margens de erro.
Kallila Barbosa
"Se a gente conseguisse construir metas que fossem mais flexíveis, que tivessem margens de erro, que não precisassem obedecer tanto o nosso imaginário fantasioso. Dessa forma, acho que a saúde mental, vai morar sempre no meio do caminho e nunca no tudo ou nada. Ou tenho, ou não tenho. Se eu tenho, estou bem, se não tenho, estou mal. Não pode ser assim. A saúde mental precisa estar ali no meio, na possibilidade. É um passo de cada vez. Um plano executável é melhor do que o plano perfeito que nunca rolou", pontuou.

"Então, se não houver cuidado, o que era para ser um respiro de esperança pode gatilhar, inclusive nos primeiros meses, dias, depende de cada um; inclusive, uma pressão que pode se tornar um transtorno de ansiedade.Achei essa pauta interessante e sensível porque, em verdade, a gente vive esse tempo de oba-oba, de virada de calendário, estoura champanhe, mas não nos damos conta dessas questões. Quando a gente gera metas irreais na expectativa dessa virada de calendário, o início do ano pode, sim, virar um grande gatilho de ansiedade, de frustração e de pressão em vez de motivação".
Campanha Janeiro Branco
Com o tema "Paz. Equilíbrio. Saúde Mental", a campanha Janeiro Branco 2026, iniciada no dia 1º deste mês, busca despertar na população a necessidade do cuidado com o psicológico. "Porque o mundo está exausto, de pressões, urgências e silêncios. Precisamos recuperar o centro, reconstruir vínculos e resgatar a serenidade que sustenta a vida. Quando a mente encontra paz, tudo ao redor respira melhor, inclusive nossas instituições, territórios e relações sociais, tão impactadas pela urgência das necessidades psicossociais humanas", destacou o Instituto de Desenvolvimento Humano Janeiro Branco, por meio de uma publicação no site oficial.
Questionada sobre o que a necessidade de inserir temáticas relacionadas à saúde mental, na rotina de crianças e adolescentes, a psicóloga deixou sua opinião.
"Quando se fala de criança e adolescente, confesso que ando um pouco desesperançosa porque as meninas estão, cada vez mais, comparado seus corpos, feito movimentos muito intensos na expectativa de padronizar uma magreza. Estamos enfrentando adolescentes e até crianças com ideação suicida. Eu acho que a gente precisaria de uma intervenção maior, como leis maiores, porque os pais não estão dando conta".
Informações sobre ações em homenagem à campanha Janeiro Branco previstas para serem realizadas em Salvador, na Bahia e em outras localidades do Brasil , podem ser conferidas nos perfis do instagram @smssalvador, @saudegovba e @minsaude.
