
É inquestionável que o ato de cuidar é essencial para a vida de todo ser humano. Além de uma expressão de amor, o cuidado também é uma representação da responsabilidade que uma pessoa tem com a outra. É comum vermos pessoas dedicando suas vidas a cuidar de alguém ou algo, e muitas delas, inclusive, acabam abrindo mão das suas próprias histórias para cuidar integralmente dos entes queridos. Se por um lado há muito afeto no ato de cuidar de quem se ama, por outro, há um peso invisível gerado pela sobrecarga e que precisa de atenção.
De acordo com dados da ONU Mulheres, o público feminino ainda é o que mais dedica a sua vida ao zelo com o outro e isso inclui criar filhos, cuidar de parentes idosos ou doentes e apoiar uma pessoa com deficiência, além das tarefas domésticas.
Ainda segundo a organização, as normas sociais ainda consideram o ato de cuidar como um "trabalho de mulher". Enquanto os homens são vistos como provedores, as mulheres ainda são as que ficam em casa quando uma criança está doente, as que aceitam o emprego de meio período ou com horários mais flexíveis, e as que são sempre elogiadas por serem "filhas prestativas".
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Se tratando de doenças raras, os cuidados também se destacam entre as mulheres. Segundo a pesquisa nacional dos Cuidadores de Pacientes Raros no Brasil, publicada pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA) em 2022, as mães são as principais responsáveis po prestar assistência aos pacientes.

Vivendo na pele
Dados do Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que, no Brasil, há 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), o que corresponde a 1,2% da população. Considerando esse percentual, a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher, da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (RJ) estima que cerca de 10 milhões de mulheres vivem apenas para os cuidados com os filhos.
A psicóloga Juliana Doria, de 38 anos, faz parte desta estatística. Ela vive na pele a responsabilidade de cuidar do filho Henri Doria, de 10 anos, que está no espectro autista (TEA). Assim, ela divide diariamente o seu tempo entre os atendimentos como psicóloga e a rotina como uma mãe atípica. "Minha rotina é intensa tanto profissionalmente quanto como mãe. Durante o dia, enquanto estou trabalhando, conto com uma pessoa que assume os cuidados de Henri. Essa é a minha rede de apoio. Fora desse período, todos os cuidados são de minha responsabilidade e, nos finais de semana, estou integralmente dedicada a ele".
Já vivi momentos de grande sobrecarga física e emocional. Conciliar a maternidade atípica com a atuação profissional exige muito.
Juliana Doria, psicóloga e mãe atípica

Juliana destaca que o desgate vai muito além do que as pessoas podem imaginar. "As pessoas costumam enxergar apenas uma parte da realidade. O que muitos não imaginam é o desgaste físico, emocional e financeiro envolvido. Existe uma preocupação constante com terapias, alimentação, saúde, desenvolvimento e garantia de direitos", desabafa.

O peso emocional da responsabilidade
Tendo que renunciar diversos momentos de sua vida para atender as demandas do seu filho, como vida social e descanso, por exemplo, Juliana destaca que uma das partes que mais pesa é a emocional. Apesar de ser psicóloga e entender bem o cenário do espectro autista, ser uma mãe atípica requer muito da sua saúde física e mental.
Mesmo sendo psicóloga e trabalhando com crianças atípicas, viver essa realidade como mãe é completamente diferente e traz desafios diários.
Juliana Doria
"Mesmo contando com apoio durante meu horário de trabalho, a responsabilidade pelas decisões, pela organização da rotina e pelos cuidados permanece sendo minha. Nos finais de semana e fora do expediente, estou integralmente dedicada a Henri, o que torna essencial buscar equilíbrio para continuar oferecendo a ele o cuidado de que precisa", conta.
Doação integral também é causa de adoecimento
O psiquiatra Rogério Jesus, presidente da Associação Psiquiátrica da Bahia (APB), explica que a exaustão vivida por Juliana e por tantas outras mulheres é um reflexo da doação integral que elas praticam. Quando esse cuidado vira contínuo e intensivo, pode gerar danos à saúde mental.
"Vai gerando no cuidador um aumento do nível do cortisol, que é o hormônio do estresse crônico, e isso vai abrindo as portas ou baixando a guarda para adoecimentos que podem ser a princípio físicos, mas principalmente mentais do ponto de vista de aumento do sofrimento, aumento de angústia, e isso leva, obviamente, a um adoecimento".

Rogério também comenta sobre como quem cuida fica na expectativa que a pessoa que está sendo cuidada melhore, e quando isso não acontece acaba gerando uma frustração. Além disso, essas pessoas costumam permancer em estado de alerta, tentando evitar que algo ruim aconteça. Alguém que cuida de um idoso sofre com medo de que algo aconteça justo em um momento de distração; assim, essa pessoa vai viver em estado de alerta: "vai tomar banho preocupada, cozinhar ou arrumar a casa preocupada, ela vai dormir preocupada", explica o profissional.
O adoecimento tem nome: Síndrome do Cuidador
Entre uma responsabilidade e outra, quem presta assistência em tempo integral precisa ficar atento para não ser acometido pela Síndrome do Cuidador. De acordo com Rogério Jesus, a condição "se caracteriza pelo processo de adoecimento lento, progressivo e contínuo do indivíduo que está sempre atento e cuidando de alguém continuamente".
Segundo ele, a questão é o tempo que o cuidador fica envolvido no processo, porque se você cuida de alguém que fez uma cirurgia ou teve algum trauma, você sabe que cuidará dessa pessoa por sete, 15 ou 30 dias e depois a vida vai seguir. Mas, se você faz isso por dois, três ou cinco anos, aquilo começa a ter um impacto muito grande na sua vida. Isso pode acontecer com um cuidador parental ou até mesmo com alguém que é cuidador profssional, diz o médico psiquiatra.

É possível cuidar sem adoecer?
A psicóloga Fabiane Veimrober aponta que é sim possível cuidar de alguém sem entrar num procesoso de adoecimento, mas o primeiro ponto é entender que o cuidador precisa colocar limites na assistência prestada. "Limitar não é abandonar, não é deixar de fazer pelo outro, mas compreender que o excesso é prejudicial e disfuncional", esclarece a profissional, que também pontua que a doação de energia sem o autocuidado devido pode gerar um "aumento da vulnerabilidade, o risco de ansiedade, depressão, burnout, dificuldade de sentir felicidade, motivação e prazer nas atividades".
Fabiane explica que, para muitas pessoas, impor limites é um processo muito difícil, porque se sentem culpadas em tirar um tempo para si mesmas. "Socialmente, fomos ensinados que cuidar de si antes de zelar pelo outro é egoísmo. Além disso, muitos aprenderam, de forma direta ou indireta, que o nosso valor vem do cuidado com o outro".
Limite é uma forma de proteger a relação e preservar a própria saúde.
Fabiane Veimrober - psicóloga

Ainda segundo a psicóloga, pedir ajuda é fundamental para que o dia a dia fique mais leve. "Aprender a pedir ajuda, dividir responsabilidades, reconhecer os próprios limites, sair do padrão tudo ou nada, reconhEcer o que faz, mudar a forma que se sente quando fizer algo por si, reservar momentos de descanso sem culpa e incluir pequenas pausas ao longo do dia fazem diferença", ressalta a profissional.
Entre cuidados, preocupações e zelo com o próximo, é essencial compreender que a assistência só será eficaz se o cuidador estiver bem e gozando de plena saúde. Olhar pra si em primeiro lugar não é egoísmo, é autocuidado.

