
O Dia Mundial sem Carro é celebrado nesta terça-feira (22), como uma data voltada à conscientização sobre o uso excessivo de automóveis e à reflexão sobre os impactos causados pelos veículos no meio ambiente e na mobilidade urbana.
Em Salvador, a discussão acontece em meio a uma frota que ultrapassa 1 milhão de veículos. Dados da Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran) mostram a quantidade de veículos registrados por município, enquanto o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estima que a capital baiana tenha 2.564.204 habitantes em 2025.
Além dos impactos provocados pelos congestionamentos, os veículos movidos a combustíveis fósseis contribuem para a emissão de gases de efeito estufa e para a poluição do ar. Nesse cenário, discutir mobilidade também significa pensar em alternativas para os deslocamentos diários, como o transporte público, a caminhada e a bicicleta.
Para algumas pessoas, porém, deixar o carro de lado não é apenas uma escolha relacionada ao meio ambiente. É também uma forma de economizar, cuidar da saúde e encontrar uma maneira diferente de enfrentar a rotina.

É o caso do técnico de enfermagem Paulo Roberto Sousa, de 42 anos. Mesmo tendo carro e trabalhando também como condutor socorrista, dirigindo ambulância, ele decidiu há cerca de 15 anos incluir a bicicleta como principal meio de transporte para ir e voltar do trabalho.
Segundo Paulo, a mudança começou depois que ele descobriu um quadro de obesidade e percebeu que, com dois empregos, teria dificuldade para encaixar uma atividade física na rotina. O preço do combustível também passou a pesar no orçamento.
Atualmente, o técnico de enfermagem percorre entre 5 e 10 quilômetros diariamente de bicicleta. Durante esse período, afirma ter perdido cerca de 30 quilos.
A troca do carro pela bicicleta também mudou a relação de Paulo com o tempo. Segundo ele, o deslocamento pode ser mais rápido em alguns momentos, principalmente por não precisar enfrentar os congestionamentos. A experiência, no entanto, não é livre de estresse.
“Não é que seja menos estressante, mas é que eu não fico no engarrafamento, então isso ajuda a dar uma ligada. O problema do estresse é porque infelizmente em Salvador as pessoas não respeitam muito a bicicleta. A gente tem que ficar mais atento, principalmente nos horários de pico, por conta dos motoristas que não respeitam as bicicletas”, pontuou o técnico de enfermagem.

Para Paulo, os benefícios da bicicleta ultrapassaram a questão do peso. O condicionamento físico também passou a ajudar no trabalho como socorrista, atividade que exige esforço físico em determinadas situações.
“Tudo melhorou, inclusive no meu trabalho, na minha atividade física como socorrista, que depende de esforço físico em alguns momentos. Isso me ajudou muito em condicionamento físico. E na questão do bolso, nem se fala também”, contou.
Hoje, ele só costuma optar pelo carro quando precisa utilizar o veículo posteriormente ou quando as condições climáticas tornam o trajeto de bicicleta mais perigoso.
“Fora isso, é bicicleta 90% das vezes, sempre. Mesmo cansado eu vou de bicicleta”, afirmou Paulo.
Paulo do Anjos
O ciclista também relaciona o deslocamento à saúde mental. Para ele, o tempo sobre a bicicleta funciona como uma espécie de pausa entre as atividades do dia.
“Na bicicleta a gente vai pedalando, vai pensando mais nas coisas, então ajuda muito no meu dia-a-dia de relaxar do trabalho, na minha saúde mental”, relatou.
Apesar dos benefícios, a insegurança ainda aparece como um dos principais obstáculos para quem escolhe a bicicleta. Paulo afirma que a falta de respeito de motoristas e a necessidade de atenção constante tornam o deslocamento mais desgastante.
Para ele, a mudança de hábito também depende de uma estrutura que permita ao ciclista ocupar as ruas com mais segurança.
“A gente precisa de uma inclusão urbana muito grande para isso. Se a prefeitura, hoje em dia, tomasse mais conta da gente, fizesse mais ciclofaixas, mais espaços para que a bicicleta funcionasse, hoje está bem melhor, não posso nem dizer a comparação alguns anos atrás. Mas ainda precisaria melhorar muito para que a gente tivesse uma mudança de hábito melhor, para que as pessoas aceitassem a bicicleta melhor”, afirmou.
Mesmo diante das dificuldades, Paulo diz que não pretende abandonar a bicicleta.
“Mas eu hoje não mudaria de jeito nenhum a bike. Gosto muito, sou apaixonado. Faz muito bem”, completou.
Paulo do Anjos
Uma rotina que começa antes do sol nascer

Se para Paulo a bicicleta é o principal meio de transporte, para a estudante Sereya Deusa ela é apenas uma parte de uma longa combinação de deslocamentos. Moradora de uma comunidade ribeirinha em Arembepe, Sereya precisa combinar bicicleta, barco e transporte público para chegar à Universidade Federal da Bahia (UFBA), onde cursa Física.
A rotina começa ainda de madrugada. Dependendo das condições do tempo, ela sai de casa entre 4h30 e 5h da manhã, pedala até o rio Arembepe, faz a travessia de barco, volta a utilizar a bicicleta e depois pega o ônibus com destino a Salvador.
“Transporte público é lá no final, já no final dessa maratona”, contou Sereya ao MASSA!.
Sereya Deusa
A estudante iniciou a graduação em 2025.1 e, desde então, o trajeto passou a fazer parte da rotina. O horário de saída também varia conforme o clima. Em períodos de chuva, ela precisa antecipar ainda mais o deslocamento.
Segundo Sereya, a rotina exige preparação. Capa de chuva, sombrinha e roupas extras fazem parte da bolsa, principalmente porque a bicicleta não possui para-lamas.
“É, eu saio com várias roupas dentro da bolsa, porque a roupa que eu saio vai chegar toda melada de lama lá”, relatou.
Sereya Deusa
As condições do trajeto também podem interferir diretamente na frequência às aulas. Em uma ocasião, uma árvore caiu sobre a fiação durante uma forte chuva e bloqueou a estrada utilizada pela estudante. Por causa do risco, ela não conseguiu passar e acabou perdendo a aula.
Fora situações como essa, a rotina segue diariamente. O ônibus costuma passar por volta das 5h30, e Sereya chega à universidade entre 6h40 e 7h, pouco antes do início da primeira aula.
A relação com o meio de transporte também se conecta à maneira como a estudante enxerga sua própria história. Com raízes Pataxó e africanas, ela afirma que vem buscando conhecer mais sobre a trajetória da família e relaciona essa conexão com a terra à forma como escolheu viver.
“Eu acredito que vem do sangue dos meus antepassados, né? Eu sou filha de negro com indígena, então eu tenho essa raiz muito forte, tanto africana quanto indígena”, afirmou.
Quando a falta de infraestrutura entra no caminho

Apesar da importância da bicicleta na rotina, Sereya afirma que ainda existem obstáculos que poderiam ser reduzidos com investimentos em infraestrutura. Um dos principais pontos levantados pela estudante é a necessidade de uma ponte para facilitar a travessia atualmente feita de barco.
“O barco é lindo, essa história, né? Mas, na prática, há muitos riscos que a gente corre, principalmente em época de chuva, assim”, explicou.
A estudante também aponta a falta de estrutura para ciclistas em Arembepe. Segundo ela, a ausência de uma faixa destinada às bicicletas aumenta a sensação de insegurança, principalmente durante a noite.
“Eu sinto falta de faixa de ciclovia lá na principal de Arembepe. [...] A gente merecia ter uma faixa de ciclovia para poder garantir a nossa segurança de ir e vir”, relatou.
O assunto é urgente: entenda a transição energética

Enquanto algumas pessoas optam por reduzir o uso do automóvel, outra frente da discussão sobre mobilidade está relacionada à forma como os veículos são abastecidos.
A chamada transição energética busca reduzir a dependência de combustíveis fósseis e ampliar o uso de fontes de energia de menor emissão de gases de efeito estufa. No setor de transportes, isso passa pela eletrificação dos veículos, mas também pelo fortalecimento do transporte coletivo e de meios não motorizados.
A discussão ganhou espaço durante a COP30, realizada em Belém, no Pará. O setor de transportes está entre os segmentos envolvidos no debate sobre redução das emissões e mudanças na matriz energética.
Na prática, a mudança não depende apenas de substituir um carro movido a gasolina por um modelo elétrico. Também envolve pensar em como as pessoas se deslocam e quais alternativas estão disponíveis para quem não possui ou não quer utilizar um automóvel.
As experiências de Paulo e Sereya mostram justamente esse outro lado da discussão. Enquanto Paulo utiliza a bicicleta para quase todos os deslocamentos, Sereya precisa combinar diferentes meios para conseguir chegar à universidade.
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E o carro elétrico?

Outra frente da transição energética é o crescimento dos veículos eletrificados. Diferentemente dos modelos movidos exclusivamente por combustíveis fósseis, os carros 100% elétricos não possuem emissão de gases pelo escapamento durante o uso.
Isso, no entanto, não significa que o impacto ambiental seja eliminado. A produção dos veículos, das baterias e a própria fonte utilizada para gerar a eletricidade também precisam ser consideradas quando se analisa o impacto ambiental da tecnologia.
No Brasil, o mercado de eletrificados vem crescendo. Segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), 223.912 veículos leves eletrificados foram vendidos em 2025, alta de 26% em relação ao ano anterior. O avanço continuou em 2026. De janeiro a agosto, foram 328.477 veículos leves eletrificados emplacados no país, segundo a ABVE. No acumulado do ano, eles representaram 20,2% das vendas de veículos leves, enquanto somente em agosto chegaram a 22%.
Apesar do crescimento, a eletrificação não resolve sozinha problemas como congestionamentos, acidentes e ocupação das vias. Um carro elétrico continua sendo um automóvel e, por isso, faz parte de uma discussão maior sobre como as cidades distribuem espaço entre carros, ônibus, bicicletas e pedestres.
Rodízio de carros seria uma solução?

Outra medida utilizada em algumas grandes cidades para tentar reduzir congestionamentos é o rodízio de veículos. A proposta consiste em restringir a circulação de determinados carros em dias e horários específicos, normalmente de acordo com o final da placa.
A medida pode reduzir temporariamente a quantidade de veículos em circulação nos períodos de maior movimento. Porém, sozinha, não resolve questões estruturais de mobilidade. Para que o motorista deixe o carro em casa, é necessário que existam alternativas capazes de atender a demanda, como transporte público integrado, infraestrutura para bicicletas e espaços adequados para pedestres.
No fim, a discussão sobre deixar o carro em casa vai além da escolha individual. Para que menos pessoas dependam do automóvel, é preciso que a cidade ofereça condições para que outras formas de deslocamento sejam seguras, acessíveis e possíveis.

