A Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (ABREMA), estima que atualmente, a indústria têxtil gera cerca de 92 milhões detoneladas lixo por ano. Só no Brasil, essa produção gira em torno de 4 milhões de resíduos. Diante disto, a reciclagem se torna uma ferramenta ainda mais importante em todo o mundo, e quem consegue unir sustentabilidade e empreendedorismo faz a diferença na sociedade.
Gerindo a Creche Escola Comunitária Fonte de Luz, localizada no Parque São Cristovão, em Salvador, há cerca de 30 anos, Maria Matildes, que preferiu não aparecer nas imagens, viu na reutilização de tecidos uma oportunidade de ofertar empregos e gerar renda para a unidade escolar, que funciona gratuitamente das 7h às 16h, de segunda a sexta-feira, e atende 70 crianças de dois a seis anos.
Prestamos assistências para eles e às famílias. A gente faz o que pode
Maria Matildes, gestora da Creche Escola Comunitária Fonte de Luz

Analisando como faria para custear as despesas da creche e mantê-la funcionando, Matildes resolveu que restos de tecido seriam sua salvação. Assim ela começou a produzir estopas, tambémconhecidas como trapo de malha, que são usadas em serviços de limpeza pesada por terem alto poder de absorção e resistência; o material produzido com retalhospassaria a ser vendido, e foi assim que nasceu uma empreendedora, tudo para garantir o funcionamento do seu projeto.
Maria Matildes é uma mulher simples, de poucas palavras, que se recusa a aparecer (nem em fotos!) ou levar qualquer crédito pelos trabalhos que faz naquela comunidade, seja pelo suporte às crianças e suas famílias, seja pela geração de emprego e renda através do pequeno negócio de estopas que montou.

Ela conta que, no começo do negócio, precisava comprar os retalhos de tecidos que seriam transformados em estopa. Isso mudou quando o empresário Hari Hartmann, CEO da indústria de vestuário Polo Salvador, que fica no bairro do Uruguai, se sensibilizou com a história da creche e pasosu a doar os restos de tecidos da produção de sua empresa para a creche, e assim a dinâmica da produção de Matildes começou a mudar.

Leia Também:
"Quando seu Hari teve conhecimento da importância da atividade desenvolvida, ele passou a fornecer gratuitamente os retalhos. Eles são de grande relevância para a nossa instituição", explica Matildes.
A parceria entre a Fonte de Luz e a Polo Salvador se mantém firme há cerca de seis anos. A empresa doa mensalmente uma tonelada de retalhos para a instituição que transforma esse material em fonte de renda. De acordo com Maria Matildes, 50% do valor arrecadado vai para os salários das três famílias que trabalham de carteira assinada na confecção das estopas. Já os outros 50% são destinados à manutenção da unidade escolar.

Além de empresário, Hari Hartmann também é geólogo e se preocupa com as questões ambientais, por isso procura manter a sua empresa como uma referência em sustentabilidade. "Está em meu DNA a pegada ecológica. Quando conheci dona Matildes, ela comprava os retalhos na Polo, porém, ao saber para que eram destinadas as vendas, me sensibilizei com a história e disse que a partir dali eu doaria os restos de tecido".
A contribuição da Polo Salvador e de outros doadores, como Conexão Vida, Central das Fardas e Mesa Brasil e também a Secretaria Municipal de Educação, permite que Matildes continue fazendo o trabalho social até mesmo com pessoas que que já não fazem mais parte do quadro de assistidos da creche.
"A cada 15 dias fazemos atividades educativas com eles, prestamos assistência para eles e para as famílias", explica a gestora, que segue fazendo parte da vida dos agora adolescentes que já passaram por sua instituição.

Fortalecendo o empreendorismo comuntário
Além de sensível e inspiradora, a movimentação que Maria Matildes faz no Parque São Cristóvão tem nome: empreendedorismo comunitário. O termo, que avançou no Brasil nos anos 90, tem se destacado cada vez mais, especialmente em comunidades periféricas, e define um modelo de negócio que tem como objetivo solucionar as carências e desenvolver a localidade.
O empreededorismo comunitário é um elemento da economia popular que se baseia na colaboração, inovação e no uso eficiente de recursos locais. Desse modo, cria oportunidades de negócios que se preocupam em atender as demandas da comunidade.
A Creche Escola Comunitária Fonte de Luz, além de atender as crianças e suas famílias, faz esse importante trabalho na comunidade, e integra uma estatística relevante: os pequenos negócios são muito importantes para gerar emprego. De acordo com um levantamento do Sebrae, 55% dos empregos criados em 2026 vieram dos pequenos negócios, o que mostra a potência do setor. Esse crescimento começou a ser observado ainda em 2025, com a expansão desse modelo de atividade.
"Esse desempenho positivo é reflexo direto de um ambiente de negócios cada vez mais dinâmico, impulsionado por políticas públicas focadas em inovação, simplificação de processos e incentivo à atividade empreendedora", afirma texto da Secretaria da Fazenda de Salvador.

Outro ponto importante é que como a produção prioriza as dores da comunidade, acaba fazendo com que o dinheiro circule pelo próprio bairro. Isso ajuda no fortalecimento dos pequenos negócios e no desenvolvimento do comércio local.
O modelo seguido na Creche Escola Comunitária Fonte de Luzgera emprego para a comunidade, ajuda os familiares que precisam trabalhar e não tem com quem deixar seus filhos e ainda contribui positivamente para o meio ambiente através da economia circular, que tem como principal foco manter um recurso circulando na sociedade pelo maior tempo possível antes do descarte.

Para Maria Matildes, o retalho que chega em tonelada todo mês não é sobra. É o fio que costura tudo: o salário de quem trabalha, a merenda de quem estuda e o futuro de quem ainda vai chegar. "A gente faz o que pode", ela resume, com a simplicidade de quem já faz muito. A empreendedora também fez questão de destacar o poder do conhecimento em sua trajetória. "A minha motivação para desenvolver o trabalho da creche é acreditar que a educação transforma o ser humano".